Gramática é só uma questão de certo ou errado?
Os
criadores literários — poetas, contistas, romancistas, músicos populares,
jornalistas — coletam e utilizam as inovações da linguagem popular ou as
inventam. Como são produtores, estão atentos às modificações da língua, que,
embora nos pareça sem alterações significativas, no seu vocabulário e na sua
gramática, traduz a própria dinâmica do povo que a fala. Se a língua fosse
estática, ainda falaríamos Latim, que é a origem do Português. Aliás, a Língua
Portuguesa é o resultado da evolução do Latim vulgar. Muitas dessas inovações
são aproveitadas pelos escritores em suas obras e acabam se incorporando à
língua. Outras são novidades passageiras e servem apenas para ilustrar a
preocupação de alguns escritores com a fala de seu povo. Os criadores literários
têm essa liberdade de recorrer às novidades lingüísticas. O redator do ensaio
não tem a mesma liberdade ou a tem muito raramente.
1. As várias características da língua
Não há por que ter preconceito das pessoas que falam
errado ou que usam gírias e outras novidades lingüísticas.
As novidades lingüísticas
fazem parte da dinâmica da língua.
Por
outro lado, seria irresponsável e superficial exigir que se mudasse a gramática
apenas porque uma parcela da população brasileira, em determinada época, está
falando um Português modificado. Vendo a questão de um modo mais amplo, sabemos
que a Língua Portuguesa é falada em diferentes regiões do país com
características próprias, sem contar que outros países, com culturas ainda mais
diversas, também a falam. É necessário, portanto, manter uma unidade lingüística
que preserve a comunicabilidade.
| Manter a unidade lingüística
é tarefa de filólogos e lingüistas, que procuram sistematizar a
língua no que se chama norma culta. |
2.
Gramática, uma questão de respeito
A gramática é o resultado do esforço de sistematização da
língua. Mas não é um código inquestionável de leis. Ela é um instrumento que
ajuda a preservar a norma lingüística e, portanto, o nosso meio de comunicação
com o leitor.
| Assim entendida, a questão
gramatical é essencialmente um respeito ao leitor. Não é responsabilidade
apenas dos gramáticos e dos estudiosos em geral. Essa é uma tarefa de todos
os que se utilizam da língua. |
3.
A gramática de cada um
Muitas pessoas não gostam de gramática e, em geral, elas
têm razões para isso. Com raras exceções, a gramática não é bem ensinada nas
escolas. Mas se desde cedo aprendemos que a língua é algo dinâmico, que faz
parte de nossa vida, podemos começar a encará-la de modo diferente. Sem precisar
ser especialista, é possível estudá-la ou consultá-la sempre que existir uma
determinada dúvida. Assim, sem grandes sofrimentos ou traumas, vamos resolvendo
os problemas que aparecem, evitando que possíveis erros atrapalhem nossa
comunicação com o leitor.
4.
Gramática e ensaio
O texto conceitual transmite a cultura superior. São
teses, ensaios, estudos, informes, resenhas, monografias etc. que
divulgam as ciências, seus conhecimentos acumulados e suas descobertas. São
milhares de novos títulos editados a cada ano em livros, revistas e outras
publicações, modificando nossa maneira de pensar e perceber a realidade. Os
textos que você produz podem não ter a importância e a amplitude daqueles que
são publicados, mas de alguma forma revelam seu acesso a uma cultura mais
erudita. Essa é uma das razões que explicam a necessidade de respeitarmos a
gramática.
| Na verdade, só temos a perder
quando cometemos falhas gramaticais, seja em um trabalho escolar ou em um
memorando de empresa. |
5.
A cultura e a língua
O texto conceitual exige o aproveitamento completo da
língua e de suas possibilidades de organização. Mas não devemos encarar a
gramática como um código fechado que dita o que deve ser feito e o que precisa
ser evitado se não queremos incorrer em erro.
| Ao contrário, a gramática é
instrumento útil que nos ajuda a aproveitar melhor nosso código de
comunicação. |
Mas o simples domínio das regras gramaticais não é
garantia de que somos capazes de escrever um bom ensaio. O domínio da gramática
é um dos aspectos de avaliação do texto, que deve ser integrado aos outros:
conteúdo, estrutura do texto, estrutura de idéias, linguagem e terminologia.
6.
A gramática e a idéia
Muitos dos erros gramaticais cometidos normalmente não
podem ser considerados apenas como falhas. Em alguns casos, comprometem em
definitivo um texto. Invariavelmente, prejudicam o entendimento da linguagem,
principalmente a clareza e a fluência, ou comprometem o conteúdo, tornando o
texto ou parte dele incompreensível.
| Uma pontuação errada,
principalmente se estiver na conclusão, pode afetar a estrutura de idéias, a
linguagem, o conteúdo e até a estrutura, se estiver na conclusão. As falhas
de pontuação do texto podem induzir a erros de lógica e por isso são
inadmissíveis. |
Mas não é só no caso da pontuação que devemos evitar os
erros a todo custo. Na verdade, devemos evitar sempre os erros gramaticais. Eles
tiram a força de um texto.
7.
Como aprender gramática
A maioria das pessoas que chega à universidade costuma ter
problemas com a gramática — sabem um pouco, sabem mais ou menos ou têm algumas
dúvidas. Poucas dominam as regras. Uma das razões para isso é a de que a
gramática nem sempre é ensinada no momento adequado e as crianças acabam tendo
uma experiência negativa com seu estudo. Além das limitações naturais das
crianças, o problema muitas vezes é agravado pela inabilidade dos professores —
geralmente presos a um currículo rígido. O fato é que a maioria das pessoas
ainda guarda a impressão de que gramática é uma porção de regras chatas que
precisam ser decoradas. Mas não é nada disso.
| Há lógica nas normas
gramaticais e uma coerência fascinante, que é, aliás, a própria beleza da
língua. |
7a. O medo do erro
Muita gente não gosta de ser corrigida, fica constrangida. Em geral, esse
sentimento acaba provocando uma aversão por escrever. Mas redigir não pode ser
causa de sofrimento, principalmente em função da correção gramatical. Errar faz
parte de qualquer atividade criativa, mas é preciso trabalhar — prestar atenção
no que se lê e no que se escreve, procurar tirar as dúvidas, quando elas
aparecem, ou estudar a gramática para valer — se quiser evitar erros
recorrentes.
8.
Um modo prático de aprender
Tenha sempre ao seu alcance uma gramática. Quando tiver
dúvidas, olhe o índice e faça sua consulta. Às vezes, um bom dicionário é o
suficiente. Aos poucos, as normas gramaticais vão se incorporando à sua prática.
Ainda que você não memorize todas as regras, o princípio da correção vai se
fixando naturalmente.
Para lembrar:
| Em caso de dúvida entre
"chutar" a grafia de uma palavra ou uma determinada acentuação, não hesite,
consulte a gramática. |
Pesquisando os índices de erros e acertos nos "chutes"
feitos por seus alunos, alguns professores de cursinho concluíram que as taxas
de erros variavam entre 70% e 90%. Ou seja, a tendência é "chutar" errado. Mais
uma razão para reforçar a idéia de que consultar a gramática deve ser um hábito
para quem escreve.
8a. Empatia com a gramática
Há livros de gramática para todos os gostos. Algumas
gramáticas são completas, minuciosas, aprofundadas. Outras são simplificadas,
trazem os assuntos "mastigados" e resumem-se ao essencial. Escolha a que achar
mais adequada ao seu interesse ou a que tenha uma linguagem com a qual você se
identifique.
8b. Domínio da língua
Você já sabe o essencial da gramática, na medida em que
domina a língua que fala e escreve. Se deseja aperfeiçoar esse domínio, deve
prestar atenção aos seus pontos fracos, procurando contorná-los. É importante
evitar falhas que tirem o brilho de sua expressão e diminuam o impacto que o
leitor pode ter com seu texto.
| Uma pessoa que redige bem tem
mais clareza de suas idéias e mais segurança em suas afirmações. As falhas
gramaticais podem ser um entrave para isso. |
Glossário
Filólogo: especialista
em Filologia, que é o estudo da língua em toda a sua amplitude e dos documentos
escritos que servem para documentá-la.
Lingüista: pessoa versada
em Lingüística ou no estudo das línguas.
Monografia: dissertação ou
estudo minucioso que se propõe a esgotar determinado tema relativamente
restrito.
Resenha: descrição
pormenorizada, relato minucioso.
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