Poesias espíritas
Revista Espírita, outubro de 1862
A criança e o ateu
(Ver no número precedente, a nota sobre o
Anjo guardião.)
(Sociedade Espírita Africana. - Médium, senhorita O...)
- Um belo Espírito se pondo como ateu
- Passeava um dia, com uma criança,
- Sobre as margens de um riacho cuja borda sombria
- Os defendia contra um sol ardente.
- Vendo fugir essa água límpida,
- Disse à criança, seu sábio companheiro.
- Onde pensas que seu curso rápido
- Deve conduzi-lo deixando este valezinho?
- Mas, disse a criança, creio que um lago pacífico
- Vai receber o tributo de suas águas,
- E que no fim de seu caminho penoso,
- Devem assim acabar todos os riachos.
- Pobre pequena! Disse rindo o mestre,
- Em que erro está o teu Espírito;
- Aprende enfim, aprende, pois, a conhecer
- Como neste mundo tudo acaba.
- Quando se afasta de sua fonte,
- Onde, suas ondas nascem cada dia,
- É para ir, no fim do seu curso,
- Ao seio dos mares, se perder para sempre.
- De nós mesmos, é uma imagem;
- Quando deixamos este mundo sedutor
- Não resta mais nada de nossa curta passagem,
- E reentramos no nada.
- Oh! meu Deus! Disse a criança com a voz triste,
- É, pois, verdade, tal seria a nossa sorte?
- Quê! de minha mãe bem amada,
- Eu tudo perdi, tudo, no dia de sua morte?
- Eu que acreditava que sua alma querida
- Podia ainda proteger seu filho,
- Partilhar com ele as penas da. vida,
- Depois nos rever um dia, junto de Deus onipotente?
- Guarda sempre esta doce crença,
- Disse-lhe baixinho seu anjo protetor.
- Sim, cara criança, guarde bem a esperança,
- Sem ela, sobre a Terra, não há felicidade.
- O tempo fugiu; há longos anos
- Nosso sábio sofreu o trespasse,
- E, sempre fiel aos seus loucos pensamentos,
- Morreu dizendo que Deus não existia.
- A criança também viu chegar a velhice,
- E sem temê-la, recebeu a morte,
- Porque, conservando a fé da sua juventude,
- Às mãos do eterno remeteu sua sorte.
- Vede, vede essa multidão solícita
- Deixar o céu, vir recebê-la;
- De puros Espíritos é o grupo sagrado:
- É seu irmão exilado que vão enfim receber.
- Mas quem ela é, pois, essa alma abandonada,
- Que parece querer se esconder?
- Do infeliz sábio, é a alma desolada,
- Que vê toda essa felicidade e não pode a ela se misturar.
- Quanto a sua pena foi amarga,
- Quando esse Deus, que ele havia tanto desafiado,
- Apareceu-lhe enfim, como um juiz severo,
- Em sua sublime majestade.
- Oh! quantas lágrimas de sofrimento
- Virão ferir esse Espírito cheio de orgulho!
- Ele que outrora ria da esperança
- Que uma pobre criança procurava além do féretro.
- Mas do Senhor a bondade paternal
- Não quis para sempre puni-lo;
- E logo essa alma imortal
- Sobre a Terra deve retornar.
- Depois, a seu turno purificada,
- Tomando seu vôo para o céu,
- Ela irá de alegria embriagada
- Repousar ao pé do Eterno.
Assinado: DUCIS.
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Fábula.
- Qual é, pois, teu regime, ó pobre Sensitiva?
- Dizia uma abóbora a essa frágil flor,
- Para ficar assim lânguida e fraca?
- Eu to digo com dor,
- A sensibilidade te perde; tu te estiolas;
- Morrerás antes do fim da estação;
- Se o Sol se esconde no horizonte,
- Vê-se se preguear teus finos folíolos:
- Um funesto tremor
- Percorre teu caule à só roçadura da brisa;
- Todo contato te dá uma crise,
- Tua vida enfim não é senão um tormento.
- E por que tantos males e solicitude?
- Segue meu exemplo experimentando doce quietude.
- O que se passa ao redor mim
- Não saberia me causar a mais leve comoção;
- De bem me sustentar faço meu único estudo,
- Que fazem, aliás, ao meu temperamento,
- Os mistérios do céu? - A luz do dia límpido,
- A obscura noite, o calor, o frio, o seco, o úmido
- Me convém igualmente.
- E é verdade que a propósito de minha forma gordíssima,
- As vezes o observador satírico e maligno
- Murmura ao meu lado: "A Abóbora vegeta!
- Mas o dito não alcança meu seio;
- Sobre meu leito nutritivo, rindo, eu rolo,
- Ciumenta de expor, sobre o solo que esmigalho,
- Meu grosso ventre e minha vasta extensão.
- Nossos gostos são diferentes, disse a pequena flor;
- Tu não queres consagrar teus cuidados, tua vida inteira
- Senão ao bem-estar da matéria;
- Eu creio fazer melhor, e, vês,
- Abreviando minha existência,
- Devoto-me ao prazer
- Do sentimento e da inteligência
- Terei sempre vivido bastante.
DOMBRE (de Marmande).
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