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Ensinamentos e Dissertações espíritasRevista Espírita, setembro de 1862 Estudos Uranográficos.(Sociedade Espírita de Paris. -Médium, Sr. Flammarion.) As três comunicações adiante são, de alguma sorte, o início de um jovem médium; ver-se-á que elas prometem para o futuro. Elas servem de introdução a uma série de ditados que o Espírito se propôs fazer sob o título de Estudos Uranográficos. Deixamos aos leitores o cuidado de lhe apreciarem a forma e o fundo. lHá algum tempo vos foi anunciado, aqui e alhures, por diversos Espíritos e por diversos médiuns, que vos seriam feitas revelações sobre o sistema dos mundos. Estou chamado para concorrer, na ordem de minha destinação, para cumprir a predição. Antes de abrir o que poderia chamar nossos estudos Uranográficos, importa bem colocar o primeiro princípio, a fim de que o edifício, assentado sobre uma base sólida, leve em si as condições de duração. Esse primeiro princípio, essa primeira causa, é o grande e soberano poder que dá a vida aos mundos e aos seres; esse preâmbulo de toda meditação séria, é Deus! A este nome venerado tudo se inclina, e a harpa etérea dos céus faz vibrar as suas cordas de ouro. Filhos da Terra, ó vós que há muito tempo balbuciais este grande nome sem compreendê-lo, quantas teorias arriscadas foram inscritas desde o começo das idades nos anais da filosofia humana! Quantas interpretações errôneas da consciência universal se mostraram através das crenças caducas dos povos antigos! e hoje ainda, quando a era cristã, em seu esplendor, se irradiou sobre o mundo, que idéia se faz do primeiro dos seres, do ser por excelência, daquele que é? Não se viu, nos últimos tempos, o panteísmo orgulhoso se elevar soberbamente até aquele que acreditou justamente qualificar de ser absorsivo, do grande todo, do seio do qual tudo saiu e no qual tudo deve reentrar e se confundir, um dia, sem distinção de individualidades? Não se viu o ateísmo grosseiro expor vergonhosamente o ceticismo negador e corruptor de todo progresso intelectual, o que quer que hajam dito seus sofistas defensores? Seria interminável mencionar escrupulosamente todos os erros que se creditaram ao assunto do princípio primordial e eterno, e a reflexão basta para vos mostrar que o homem terrestre errará todas as vezes que pretender explicar esse problema insolúvel para muitos Espíritos desencarnados. É vos dizer implicitamente que deveis, melhor dizendo, que devemos nos inclinar humildemente diante do grande Ser; é vos dizer, filhos! que se está em nós nos elevarmos até a idéia do Ser infinito, isto deve nos bastar e interditar, a todos, a pretensão orgulhosa de ter os olhos abertos diante do Sol, sem o que estaríamos logo cegos pelo deslumbrante esplendor de Deus na sua eterna glória! Retende bem isto, é o prelúdio de nossos estudos: Crede em Deus criador e organizador das esferas; amai a Deus criador e protetor das almas, e poderemos penetrar juntos, humilde e estudiosamente, ao mesmo tempo, no santuário onde semeou os dons de seu poder infinito. GALILEU. IIDepois de ter estabelecido o primeiro ponto de nossa tese, a segunda questão que se apresenta é o problema do poder que conserva os seres e se convencionou chamar Natureza. Depois da palavra que resume tudo, a palavra que representa tudo. Ora, portanto, o que é a Natureza? Escutai primeiro a definição do naturalismo moderno: A Natureza, diz ele, é o trono exterior do poder divino. A essa definição, eu acrescentaria esta, que resume todas as idéias dos observadores: a Natureza é o poder efetivo do Criador. Notemos esta dupla explicação da mesma palavra que, por uma maravilhosa combinação da linguagem, representa duas coisas à primeira vista tão diferentes. Com efeito, a Natureza, entendida no primeiro sentido, representa o efeito cuja causa está expressa sob o segundo sentido. Uma paisagem no horizonte perdido, as árvores espessas sob as quais sente-se a vida subir com a seiva; uma campina colorida pelas flores odorantes e coroadas pelo Sol: isto se chama Natureza. Agora, se quer designar a força que guia os astros na vastidão ou que faz germinar, sobre a Terra, o grão de trigo? É ainda a Natureza. Que a constatação dessas diversas qualificações seja para vós a fonte de profundas reflexões; que sirva para vos ensinar que se servindo da mesma palavra para exprimir o efeito e a causa, é que, na realidade, a causa e o efeito não fazem senão um. O astro atrai o astro no espaço segundo as leis inerentes à constituição do universo, e é atraído com a mesma força que aquela que reside nele. Eis a causa e o efeito. O raio solar coloca o perfume sobre a flor, e a abelha ali vai procurar o mel; aqui, p perfume é ainda o efeito e a causa. Em vários lugares que vossos olhares se abaixarem sobre a Terra, podereis constatar, por toda a parte, esta dupla natureza. Concluímos disto que se a Natureza é, como a denominei, o poder efetivo de Deus, ela é ao mesmo tempo o trono desse mesmo poder; é, ao mesmo tempo, ativa e passiva, efeito e causa, matéria e força imaterial; é a lei que cria, a lei que governa, a lei que embeleza; é o ser e a imagem; é a manifestação do poder criador, infinitamente bela, infinitamente admirável, infinitamente digna da vontade da qual ela é a mensageira. GALILEU. IIINosso terceiro estudo terá por assunto o espaço. Várias definições dessa palavra foram dadas; a principal é esta: a extensão que separa dois corpos. De onde certos sofistas deduziram que ali onde não houvesse corpos, não haveria espaço; foi sobre o que os doutores em teologia se basearam para estabelecer que o espaço era necessariamente finito, alegando que corpos limitados em certo número não podiam formar uma seqüência infinita; e que ali onde os corpos se detinham, o espaço se detinha também. Definiu-se ainda o espaço: o lugar onde se movem os mundos, o vazio onde age a matéria, etc... Deixamos nos tratados onde elas repousam todas essas definições que não definem nada. O espaço é uma dessas palavras que representam uma idéia primitiva e axiomática, evidente por si mesma, e que as diversas definições que se podem dele dar não sabem senão obscurecer. Todos sabemos o que é o espaço, e não quero senão estabelecer sua infinidade, a fim de que nossos estudos ulteriores não tenham nenhuma barreira se opondo às investigações de nosso objetivo. Ora, digo que o espaço é infinito, por esta razão de que é impossível lhe supor algum limite, e que, apesar da dificuldade que temos para conceber o infinito, nos é no entanto mais fácil ir eternamente no espaço, em pensamento, do que nos deter num lugar qualquer junto ao qual não encontraríamos mais extensão a percorrer. Para nos figurar, tanto quanto são nossas faculdades limitadas, a infinidade do espaço, suponhamos que partindo da Terra perdida no meio do infinito, para um ponto qualquer do Universo, e isso com a rapidez prodigiosa da centelha elétrica que transpõe milhares de léguas a cada segundo, apenas tenhamos deixado este globo, não tendo percorrido milhões de léguas, nós nos encontramos num lugar onde aTerra não nos aparece mais que sob o aspecto de uma pálida estrela. Um instante depois, seguindo sempre a mesma direção, chegamos às estrelas distantes que distinguis com dificuldade de vossa estação terrestre; e dali, não somente a Terra está inteiramente perdida para os nossos olhares nas profundezas do céu, mas ainda o vosso próprio Sol, mesmo em seu esplendor, é eclipsado pela extensão que dele nos separa. Animados sempre da mesma rapidez do relâmpago, transpomos sistemas de mundos a cada passo que avançamos na extensão, ilhas de luz etérea, caminhos estelares, paragens suntuosas onde Deus semeou os mundos com a mesma profusão que semeou as plantas nas campinas terrestres. Ora, há apenas alguns minutos que caminhamos, e já centenas de milhões e de milhões de léguas nos separam da Terra, bilhões de mundos passaram sob nossos olhares, e no entanto escutai: Não avançamos, em realidade, um só passo no Universo. Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, milhões de períodos cem vezes seculares e incessantemente com a mesma rapidez do relâmpago, não teremos avançado quase nada! E isto de algum lado que fôssemos e para algum ponto que nos dirigíssemos depois desse grão invisível que deixamos e que se chama a Terra. Eis o que é o espaço! GALILEU. |
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