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Do sobrenatural

Revista Espírita, janeiro de 1862

Pelo Sr. Guizot.

(2° artigo. - Ver o número de dezembro de 1861.)

Publicamos, no nosso último número, eloqüente e notável capítulo do Sr. Guizot sobre o Sobrenatural, e a respeito do qual nos propusemos fazer algumas notas críticas, que não tiram nada de nossa admiração pelo ilustre e sábio escritor.

O Sr. Guizot crê no sobrenatural; sobre esse ponto, como sobre muitos outros, importa se entender bem sobre as palavras. Na sua acepção própria, sobrenatural significa o que está acima da Natureza, fora das leis da Natureza. O sobrenatural, propriamente dito, não está, pois, submetido a leis; é uma exceção, uma derrogação às leis que regem a criação; em uma palavra, é sinônimo de milagre. Do sentido próprio, essas duas palavras passaram na linguagem figurada, onde delas se servem para designar tudo o que é extraordinário, surpreendente, insólito; diz-se de uma coisa que espanta que ela é miraculosa, como se diz de uma grande extensão que ela é incomensurável, de um grande número que ele é incalculável, de uma longa duração que ela é eterna, embora, a rigor, possa-se medir uma, calcular outra, e prever um fim à ultima. Pela mesma razão, qualifica-se de sobrenatural o que, à primeira vista, parece sair dos limites do possível. O vulgo ignorante é sobretudo muito levado a tomar esta palavra ao pé da letra, para o que não compreende. Entendendo-se por aí o que se afasta das causas conhecidas, nós o queremos muito, mas então essa palavra não tem mais sentido preciso, porque o que era sobrenatural ontem não o é mais hoje. Quantas coisas, consideradas outrora como tais, a ciência não fez entrar no domínio das leis naturais! Por alguns progressos que fizemos, podemos nos gabar de conhecer todos os segredos de Deus? A Natureza nos disse sua última palavra sobre todas as coisas? Cada dia não vem dar um desmentido a essa orgulhosa pretensão? Se, pois, o que era sobrenatural ontem não o é mais hoje, pode-se logicamente inferir que o que é sobrenatural hoje pode não sê-lo amanhã. Para nós, tomamos a palavra sobrenatural no seu mais absoluto sentido próprio, isto é, para designar todo fenômeno contrário às leis da Natureza. Ó caráter do fato sobrenatural, ou miraculoso, é de ser excepcional; desde que se reproduz, é que está submetido a uma lei conhecida ou desconhecida, e reentra na ordem geral.

Se se restringe a Natureza ao mundo material, visível, é evidente que as coisas do mundo invisível serão sobrenaturais; mas o mundo invisível estando, ele mesmo, submetido a leis, cremos mais lógico definir a Natureza: O conjunto das obras da criação, regidas por leis imutáveis da Divindade. Se, como o Espiritismo demonstra, o mundo invisível é uma das forças, uma das potências reagindo sobre a matéria, desempenha um papel importante na Natureza, é porque os fenômenos espíritas não são, para nós, nem sobrenaturais, nem miraculosos; de onde se vê que o Espiritismo, longe de ser o círculo do maravilhoso, tende a restringi-lo e mesmo a fazê-lo desaparecer.

O Sr. Guizot, dissemos, crê no sobrenatural, mas no sentido miraculoso, o que não implica, de nenhum modo, a crença nos Espíritos e em suas manifestações; ora, do fato que, para nós, os fenômenos espíritas nada têm de anormal, não se segue que Deus não haja podido, em certos casos, derrogar as suas leis, uma vez que é todo-poderoso. Tê-lo-ia feito? Não é aqui o lugar de examiná-lo; seria preciso, para isso, discutir não o princípio mas cada fato isoladamente; ora, colocando-nos no ponto de vista do Sr. Guizot, quer dizer, da realidade dos fatos miraculosos, vamos tentar combater a conseqüência que disso tira, a saber que: a religião não é possível sem o sobrenatural, e provar ao contrário que de seu sistema decorre o aniquilamento da religião.

O Sr. Guizot parte deste princípio de que todas as religiões são fundadas sobre o sobrenatural. Isso é verdadeiro se se entende por aí o que não é compreendido; mas se se remonta o estado dos conhecimentos humanos, à época da fundação de todas as religiões conhecidas, sabe-se o quanto era, então, limitado o saber dos homens em astronomia, em física, em química, em geologia, em fisiologia, etc.; se nos tempos modernos, bom número de fenômenos hoje perfeitamente conhecidos e explicados, passaram por maravilhosos, com mais forte razão deveria ser assim nos tempos recuados. Acrescentemos que a linguagem figurada, simbólica e alegórica, em uso entre todos os povos do Oriente, se prestava naturalmente às ficções, cuja ignorância não permitia descobrir o verdadeiro sentido; acrescentemos ainda que, os fundadores das religiões, homens superiores ao vulgo, e sabendo mais do que ele, deveram, para impressionar as massas, cercar-se de um prestígio sobre-humano, e que certos ambiciosos puderam explorar a credulidade: vede Numa; vede Maomé e tantos outros. São impostores, direis. Seja; tomemos as religiões resultantes da lei mosaica; todas adotam a criação segundo o Gênesis; ora, há, com efeito, alguma coisa de mais sobrenatural do que essa formação da Terra, tirada do nada, desembaraçada do caos, povoada de todos os seres vivos, homens, animais e plantas, todos formados e adultos, e isso em seis dias de vinte e quatro horas, como um golpe de varinha mágica? Não é a derrogação, a mais formal, às leis que regem a matéria e a progressão dos seres? Certamente, Deus poderia fazer; mas o fez? Há poucos anos ainda, afirmava-se-o como um artigo de fé, e eis que a ciência recoloca o fato imenso da origem do mundo na ordem dos fatos naturais, provando que tudo se cumpriu segundo leis eternas. A religião sofreu por não ter mais por base um fato maravilhoso por excelência? Incontestavelmente, teria sofrido muito em seu crédito se ela obstinasse em negar a evidência, ao passo que ganhou reentrando no direito comum.

Um fato muito menos importante, apesar das perseguições das quais foi a fonte, é o de Josué detendo o Sol para prolongar o dia de duas horas. Que seja o Sol ou a Terra que tenha parado, o fato não é por isso menos tudo o que há de mais sobrenatural; é uma derrogação a uma das leis mais capitais, a da força que arrasta os mundos. Acreditou-se escapar à dificuldade reconhecendo que é a Terra que gira, mas contara-se sem a maçã de Newton, a mecânica celeste de Laplace e a lei da gravitação. Que o movimento da Terra seja suspenso, não por duas horas, mas por alguns minutos, a força centrífuga cessa, e a Terra vai se precipitar sobre o Sol; o equilíbrio das águas em sua superfície é mantido pela continuidade do movimento; cessando o movimento, tudo é transtornado; ora, a história do mundo não faz menção do menor cataclismo nessa época. Não contestamos que Deus haja podido favorecer Josué prolongando a claridade do dia; que meio empregaria? Nós o ignoramos; isso poderia ser uma aurora boreal, um meteoro ou qualquer outro fenômeno que não mudaria nada na ordem das coisas; mas, seguramente, esse não foi aquele do qual se fez, durante séculos, um artigo de fé; que outrora se haja acreditado, é bastante natural, mas hoje isso não é possível, a menos que se renegue a ciência.

Mas, dir-se-á, a religião se apoia sobre muitos outros fatos que não são nem explicados nem explicáveis. Inexplicados sim; inexplicáveis, é uma outro, questão; sabe-se sobre as descobertas e os conhecimentos que o futuro nos reserva? Já não se vê, sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do Espiritismo, se reproduzirem os, êxtases, as visões, as aparições, a visão à distância, as curas instantâneas, os levantamentos, as comunicações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos conhecidos de tempos imemoriais, considerados outrora como maravilhosos, e demonstrados hoje pertencerem à ordem das coisas naturais segundo a lei constitutiva dos seres? Os livros sacros estão cheios de fatos qualificados de sobrenaturais; mas como são encontrados análogos, e mais maravilhosos ainda, em todas religiões pagas da antigüidade, se a verdade de uma religião dependesse do número e da natureza desses fatos, não sabemos muito a que dominava.

O Sr. Guizot, como prova do sobrenatural, cita a formação do primeiro homem que deveu ser criado adulto, porque, diz ele, só, no estado de infância, não poderia se nutrir. Mas se Deus fez uma exceção criando-o adulto, não poderia fazer uma outra dando à criança os meios de viver, e isso mesmo sem se afastar da ordem estabelecida? Os animais sendo inferiores ao homem, não podia realizar, a respeito da primeira criança, a fábula de Rômulo e Remo?

Dizemos da primeira criança, deveríamos dizer das primeiras crianças; porque a questão de uma fonte única da espécie humana é muito controvertida. Com efeito, as leis antropológicas demonstram a impossibilidade material de que a posteridade de um único homem haja podido, em alguns séculos, povoar toda a Terra, e se transformar em raças negras, amarelas e vermelhas; porque está bem demonstrado que essas diferenças prendem-se à constituição orgânica e não ao clima.

O Sr. Guizot sustenta uma tese perigosa afirmando que, de nenhum modo, a religião é possível sem o sobrenatural; se faz repousar as verdades do Cristianismo sobre a base única do maravilhoso, dá-lhe um apoio frágil cujas pedras se destacam cada dia. Nós lha damos uma mais sólida: as leis imutáveis de Deus. Esta base desafia o tempo e a ciência; porque o tempo e a ciência virão sancioná-la. A tese do Sr. Guizot conduz, .pois, a esta conclusão de que, num tempo dado, não haveria mais religião possível, mesmo religião cristã, se o que é considerado como sobrenatural for demonstrado natural. Está aí o que se quis provar? Não; mas é a conseqüência do seu argumento, e para ela se caminha a grande passo; porque seria agir inutilmente e amontoar raciocínios sobre raciocínios, não se chegará a manter a crença de que um fato é sobrenatural quando estiver provado que não o é.

Sob esse aspecto somos muito menos cépticos que o Sr. Guizot, e dizemos que Deus não é menos digno de nosso reconhecimento e de nosso respeito por não haver derrogado às suas leis, grandes sobretudo pela sua imutabilidade, e que não há necessidade de sobrenatural para lhe prestar o culto que lhe é devido, e, por conseqüência, para ter uma religião que encontrará tanto menos incrédulos quanto seja, em todos os pontos, sancionada pela razão; não pode senão ganhar com isso: se alguma coisa pôde prejudicá-la na opinião de muitas pessoas, foi precisamente o abuso do maravilhoso e do sobrenatural. Fazei ver aos homens a grandeza e o poder de Deus em todas as suas obras; mostrai-lhes sua sabedoria e sua admirável previdência, desde a germinação de um talo de erva até o mecanismo do Universo: as maravilhas não faltam; substituí em seu espírito a idéia de um Deus ciumento, colérico, vingativo e implacável, pela de um Deus soberanamente justo, bom e misericordioso, que não condena aos suplícios eternos e sem esperança por faltas temporárias; que, desde a infância, sejam nutridos dessas idéias que crescerão com a sua razão, e fareis mais de firmes e sinceros crentes do que os embalando com alegorias que vós os forcais a tomar ao pé da letra, e que, mais tarde, repelirão por si mesmos, levando-os a duvidar de tudo, e mesmo a tudo negar. Se quereis manter a religião pelo único prestígio do maravilhoso, não há senão um único meio, é manter os homens na ignorância; vede se é possível. À força de não mostrar a ação de Deus senão nos prodígios, nas exceções, cessa-se de fazê-la ver nas maravilhas que esmigalhamos sob os pés.

Objetar-se-á, sem dúvida, o nascimento miraculoso do Cristo, que não se saberia explicar pelas leis naturais, e que é uma das provas mais brilhantes de seu caráter divino. Não é aqui o lugar de examinar esta questão; mas, ainda uma vez, não contestamos a Deus o poder de derrogar as leis que fez; o que contestamos é a necessidade absoluta dessa derrogação para o estabelecimento de uma religião qualquer.

O Magnetismo e o Espiritismo, dir-se-á, reproduzindo os fenômenos reputados miraculosos, são contrários à religião atual, porque tendem a tirar desses fatos seu caráter sobrenatural. Que fazer aí, se esses fatos são reais? Não serão impedidos, uma vez que não são o privilégio de um homem, mas que se produzem no mundo inteiro. Poder-se-ia dizer isso tanto da física, da química, da astronomia, da geologia, da meteorologia, de todas as ciências em uma palavra. Sob esse aspecto, diremos que o ceticismo de muitas pessoas não tem outra fonte senão a impossibilidade, segundo elas, desses fatos excepcionais; negando a base sobre a qual se apoia, negam todo o resto; provai-lhes a possibilidade e a realidade desses fatos, reproduzindo-os sob seus olhos, e serão forçados a crerem neles. - Mas é tirar ao Cristo seu caráter divino! - Desejai, pois, melhor que não creia em nada de tudo do que crer em alguma coisa? Não há, pois, senão esse meio para provar a divindade da missão do Cristo? Seu caráter não ressalta cem vezes melhor da sublimidade de sua doutrina e do exemplo que deu de todas as virtudes? Se não se vê esse caráter senão nas ações materiais que realizou, outros não fizeram fatos semelhantes, para não falar senão de Apolônio de Tiana seu contemporâneo? Por que, pois, o Cristo dominou sobre este último? Foi porque fez um milagre muito grande como o de mudar a água em vinho, de alimentar quatro mil homens com cinco pães, de curar os epilépticos, de dar vista aos cegos e fazer andar os paralíticos; foi a revolução que fez a simples palavra de um homem saído de um estábulo, durante três anos de pregação, sem nada ter escrito, ajudado unicamente por alguns obscuros pescadores ignorantes, eis o verdadeiro prodígio, aquele em que é preciso ser cego para não ver a mão de Deus. Compenetrai os homens desta verdade - é o melhor meio de fazer sólidos crentes.

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