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Conversas familiares de além-túmulo

Revista Espírita, julho de 1861

Os amigos não nos esquecem no outro mundo.

Um dos nossos assinantes nos transmite a conversa seguinte que teve com um de seus amigos, cuja perda lhe fora muito sensível, por intermédio de um médium estranho, não sendo ele mesmo médium. Além da elevação notável dos pensamentos, ver-se-á a prova de que os laços formados sobre a Terra, quando são sinceros, não são rompidos pela morte.

Primeira conversa, em 28 de dezembro de 1860.

1. Evocação. Prece ao Espírito de Jules P..., que me foi tão querido, para consentir comunicar-se comigo. - R. Caro amigo, venho a teu chamado; venho com tanto mais solicitude quanto não podia esperar comunicar-me contigo senão num tempo ainda recebido pela vontade de Deus. Quanto me é doce ver esse tempo abreviado pela tua vontade, e poder te dizer quanto a prova que sofri sobre a Terra serviu para o meu adiantamento! Embora errante ainda, me sinto muito feliz, sem outro pensamento senão o entusiasmo pelas obras de Deus, que me permite gozar de todos os prodígios que ele tenha a bondade de deixar à minha disposição, deixando-me esperar uma reencamação num mundo superior, onde seguirei a gradação afortunada que me elevará à suprema felicidade. Possas, caro amigo, ouvindo-me, ver em minhas palavras um presságio do que te espera! Eu virei, no último dia, tomar-te pela mão para te mostrar o caminho que já percorri, desde algum tempo, com tanta alegria. Encontrar-me-ás como guia, como na vida terrestre me encontrastes como amigo fiel.

2. Que eu possa contar com o teu concurso, caro amigo, para chegar ao objetivo feliz que me deixastes entrever?"- R. Ficai tranqüilo; eu farei o meu possível para te fazer avançar nesse caminho onde ambos nos reencontraremos, com tanta emoção e prazer; eu virei, como outrora, dar-te todas as provas de bondade de coração, às quais fostes sempre tão sensível.

3. Devo concluir de tua linguagem que és mais feliz do que não o eras quando de tua última existência? - R. Sem contradita, meu amigo, muito feliz, não poderia bastante repeti-lo. Que diferença! Não mais tédio, não mais tristeza, não mais sofrimentos corpóreos e morais; e, com isso a visão de tudo o que nos foi caro! Freqüentemente estive contigo, ao teu lado; quantas vezes eu te segui em tua liça! Eu te via quando tu não me supunhas tão perto de ti, tu que me acreditavas perdido para sempre. Meu querido amigo, a vida é preciosa para o Espírito; tanto mais preciosa quanto ela é doce e pode fazê-la servir, como sobre a Terra, para o seu adiantamento celeste. Fica bem persuadido de que tudo concorda nos decretos divinos para tornar as criaturas de Deus mais felizes, e que basta, de sua parte, ter um coração para amar, e curvar a cabeça para ser humilde; eleva-se então mais alto do que se poderia esperar.

4. Que desejas de mim que possa te dar prazer? - R. Teu pensamento revestido de uma flor.

Nota. Uma discussão tendo se estabelecido sobre o sentido desta resposta, o Espírito acrescentou:

Quando eu digo que o pensamento revestido de uma flor, digo que colhendo flores, deves pensar algumas vezes em mim. Compreendes que quero, tanto quanto possível, me reproduzir sob um de teus sentidos, atingindo-te agradavelmente.

5. Adeus, caro amigo; aproveitarei com prazer a próxima ocasião que tiver para te evocar. - R. Eu te esperarei com impaciência. Até breve, caro amigo.

Segunda conversa, em 31 de dezembro.

6. Evocação. Novo pedido ao meu amigo para que consinta dar-me uma comunicação, no interesse de minha instrução. - R. Eis-me aqui de novo, caro amigo; eu não peço mais do que vir dizer-te, ainda uma vez, o quanto me foste caro. Disso quero te dar uma prova me elevando às mais altas considerações. Sim, meu amigo, a matéria não é nada; tratai-a duramente; não temas nada, o Espírito é tudo; só ele se perpetua e não deve jamais cessar de viver, nem de percorrer os caminhos que Deus lhe traça. Ele se detém, por vezes, nas bordas escarpadas para retomar alento; mas quando volta os olhos para o Criador, ele retoma coragem e supera rapidamente as dificuldades que encontra, se eleva, e admira a bondade de seu senhor que lhe distribui na medida as forças das quais tem necessidade. Então avança; o céu se apresenta aos seus olhos, ao seu coração; ele caminha, e logo torna-se digno do destino celeste que entrevê. Caro amigo, náo temas mais nada; sinto em mim a coragem dobrada, as forças decuplicadas, desde que deixei a vossa Terra; não duvido mais da felicidade predita que, comparada àquilo que desfruto, será tão superior quanto a mais brilhante das pedras preciosas o é ao mais simples anel. Assim, vês quanto há de grandeza nas vontades celestes, e que será bem difícil para os humanos apreciá-las, pesar-lhes os resultados! A vossa linguagem também nos serve dificilmente, quando queremos exprimir o que deve vos parecer incompreensível.

7. Nada tens a acrescentar ao belos pensamentos que acabas de exprimir? - R. Sem dúvida não terminei; mas quis te dar uma prova de minha identidade. Quando quiseres, dar-te-ei novas.

Nota. Essas provas de identidade são aqui todas morais e não ressaltam de nenhum sinal material, nem de nenhuma dessas perguntas pueris que algumas pessoas fazem freqüentemente com esse objetivo. As provas morais são as melhores e as mais seguras, tendo em vista que os sinais materiais podem sempre serem imitados por Espíritos enganadores; aqui, o Espírito se fez reconhecer pelos seus pensamentos, seu caráter, a elevação e a nobreza do estilo. Um Espírito enganador poderia certamente tentar imitá-las sob esse aspecto, mas isso não seria jamais senão uma imitação grosseira, e como o fundo faltaria nela, não poderia imitar senão a forma, e, aliás, não poderia sustentar por muito tempo o seu papel. 8. Uma vez que estás nessa disposição benevolente, ficaria feliz em aproveitá-la agora, e pedir-te para consentir em continuar. -R. Eu te direi: abre o livro de teus destinos; o Evangelho, meu amigo, te dará a compreender muitas coisas que eu não saberia exprimir. Deixa a letra; toma o espírito desse livro sagrado, e nele encontrarás todas as consolações que são necessárias ao teu coração. Não te inquietes com termos obscuros; procura o pensamento, e o teu coração interpretará como deve interpretá-lo. Estou agora mais a par, e confesso o erro que nós, Espíritos, fizemos em considerá-lo tão friamente quando vivos. Reconheço, hoje, que felizmente servi para meu coração, entendo mais os ensinos preciosos que o Divino Mestre nos deixou, teria podido nele haurir mais recursos que me escaparam.

9. Obrigado e adeus, caro amigo; aproveitarei com prazer a primeira ocasião de te evocar. - R. Virei então como vim, hoje, não duvides disso; farei com o meu melhor.

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