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CorrespondênciaRevista Espírita, junho de 1861 A carta seguinte nos foi dirigida pelo Sr. Roustaing, advogado na Corte Imperial de Bordeaux, antigo chefe da ordem dos advogados. Os princípios que ali estão altamente expressos da parte de um homem que a sua posição coloca-o na classe dos mais esclarecidos, darão talvez a refletir a alguns daqueles que, crendo ter o privilégio da razão, alinham, sem cerimônia, todos os adeptos do Espiritismo entre os imbecis. Meu caro senhor e muito honrado chefe Espírita, Recebi a doce influência e recolhi o benefício destas palavras do Cristo a Tome: Felizes aqueles que creram e que nada viram; profundas, verdadeiras e divinas palavras que mostram o caminho mais seguro, o mais racional que conduz à fé, segundo a máxima de São Paulo, que o Espiritismo cumpre e realiza: Rationabile sit obseqium vestrum. Quando vos escrevi, no mês de março último, pela primeira vez, eu vos dizia: Eu nada vi, mas li e compreendi, e acreditei. Deus me recompensou muito por crer sem ter visto; depois, eu vi e vi bem; vi condições proveitosas, e a parte experimental veio animar, se assim posso me exprimir, a fé que a parte doutrinária me dera, e, fortificando-a, imprimiu-lhe a vida. Depois de ter estudado e compreendido, conheço o mundo invisível como conheço Paris, naquilo que a estudei sobre o mapa. Pela experiência, o trabalho e a observação continuados, conheci o mundo invisível e seus habitantes como conhecia Paris naquilo que a percorri, mas sem ter ainda penetrado em todos os cantos dessa vasta capital. Contudo, desde o começo do mês de abril, graças ao conhecimento que me proporcionastes do excelente Sr. Sabo e de sua família patriarcal, todos bons e verdadeiros Espíritas, pude trabalhar, e trabalhei constantemente, cada dia, com eles em minha casa, em presença e com o concurso dos adeptos de nossa cidade, que estão convencidos da verdade do Espiritismo, se bem que nem todos sejam ainda, de fato e praticamente, Espíritas. O Sr. Sabo vos enviou exatamente o produto de nossos trabalhos obtidos a título de ensinamento, por evocações ou por Manifestações espontâneas dos Espíritos superiores. Sentimos tanto de alegria e de surpresa quanto de confusão e humildade, quando recebemos esses ensinos tão preciosos e verdadeiramente sublimes, de tantos Espíritos elevados que vieram nos visitar, ou nos enviaram mensageiros para falarem em seu nome. Oh! caro senhor, quanto sou feliz por não mais pertencer, pelo culto material, à Terra que sei agora não ser, para os nossos Espíritos, senão um lugar de exílio, a título de provas ou expiações! Quanto sou feliz por conhecer, e ter compreendido, a re-encarnaçáo, com toda a sua importância, e todas as suas conseqüências, como realidade e não como alegoria. A reencarnação, essa sublime e eqüitativa justiça de Deus, assim como o dizia, ontem ainda, um guia protetor, tão bela, tão consoladora, uma vez que deixa a possibilidade de fazer no dia seguinte o que não fizemos na véspera; que faz a criatura progredir para o criador; "essa justa e eqüitativa lei," segundo a expressão de Joseph de Maistre, na evocação que fizemos de seu Espírito, e que recebestes; a reencarnação é, segundo a divina palavra do Cristo, "o longo e difícil caminho a percorrer para chegar à morada de Deus." Eu compreendo agora o sentido destas palavras do Cristo a Nicodemus: Sois doutor da lei e não sabeis isso! Hoje, que Deus me permitiu compreender, de maneira completa, toda a verdade da lei evangélica, eu me pergunto como a ignorância dos homens, doutores da lei, pôde resistir, a esse ponto, à interpretação dos textos; produzir, assim, o erro e a mentira que mantiveram o materialismo, a incredulidade, o fanatismo ou a covardia? Eu me pergunto como essa ignorância, esse erro, puderam se produzir, quando o Cristo tivera o cuidado de proclamar a necessidade de reviver, dizendo: É PRECISO QUE NASÇAIS DE NOVO, e pela reencarnação, como o seu único meio de ver o reino de Deus, o que já era conhecido e ensinado sobre a Terra, e que Nicodemus deveria saber: Sois doutor da lei e não sabeis isso! É verdade que o Cristo acrescenta a cada passo: Que aqueles que têm ouvidos, ouçam; e também: Eles têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem nada; têm ouvidos e não ouvem e nem compreendem nada;" o que pode se aplicar àqueles que vieram depois dele, tão bem quanto àqueles de seu tempo. Deus, em sua bondade, eu o disse, recompensou-me pelos nossos trabalhos até este dia, e os ensinos que nos fez dar, pelos seus divinos mensageiros, "missionários devotados e inteligentes junto de seus irmãos, - segundo a expressão do Espírito de Fénelon, - para lhe inspirar o amor e a caridade ao próximo, o esquecimento das injúrias e o culto da adoração devida a Deus." Eu compreendo agora a admirável importância dessas palavras do Espírito de Fénelon, quando fala desses divinos mensageiros: 'Viveram tantas vezes que se tornaram nossos mestres." Agradeço com alegria e humildade esses divinos mensageiros por terem vindo nos ensinar que o Cristo está em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo, essa terceira explosão da bondade divina, para cumprir esta palavra final do Evangelho: "Unum ovile et unus pastor? por terem vindo nos dizer: "Não temais nada! O Cristo (chamado por eles Espírito de Verdade), a Verdade é o primeiro e o mais santo missionário das idéias espíritas. "Estas palavras me tocaram vivamente, e me perguntava: Mas onde está, pois, o Cristo em missão sobre a Terra?" A Verdade comanda, segundo a expressão do Espírito de Marius, bispo das primeiras idades da Igreja, essa falange de Espíritos enviados por Deus em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo." Que doces e puros gozos dão esses trabalhos espíritas pela caridade feita com a ajuda da evocação dos Espíritos sofredores! Que se consolação encontra-se em comunicar com aqueles que foram, sobre a Terra, nossos parentes ou nossos amigos; a ensinar que são felizes ou a aliviá-los se sofrem! Que viva e brilhante luz lançam em nossas almas esses ensinamentos espíritas que, nos ensinando a verdade completa da lei do Cristo, nos dão a fé pela nossa própria razão, e nos fazem compreender a onipotência do Criador, sua grandeza, sua justiça, sua bondade e sua misericórdia infinita, colocando-nos, assim, na deliciosa necessidade de praticar essa lei divina de amor e de caridade! Que sublime revelação nos dão, em nos ensinando que esses divinos mensageiros, nos fazendo progredir, progridem eles mesmos para irem aumentar a falange sagrada dos Espíritos perfeitos! Admirável e divina harmonia que nos mostra, ao mesmo tempo, a unidade em Deus e a solidariedade entre todas as criaturas; que nos mostra estas, sob a influência e o impulso dessa solidariedade, dessa simpatia, dessa reciprocidade, chamadas a escalar, e escalando, mas não sem hipocrisia e sem quedas, aos seus primeiros ensaios, essa longa e alta escala espírita, para, depois de ter percorrido todos os degraus, chegar ao estado de simplicidade e de ignorância originais, à perfeição intelectual e moral, e, por essa perfeição, a Deus. Admirável e divina harmonia, que nos mostra essa grande divisão de inferioridade e de superioridade, pela distinção dos mundos que são os lugares de exílio, onde tudo não é senão prova e expiação, e mundos superiores, moradas dos bons Espíritos, onde não têm mais senão que progredir para o bem. A reencarnação, bem compreendida, ensina aos homens que eles não estão neste mundo senão num lugar de passagem, onde estão livres para não mais voltarem, se fazem o que é necessário para isso; que o poder, as riquezas, as dignidades, a ciência não lhes são dados senão a título de provas, e como meio de progredir para o bem; que não são, em suas mãos, senão um depósito e um instrumento para a prática da lei de amor e de caridade; que o mendigo que passa ao lado de um grande senhor é seu irmão diante de Deus, e talvez o foi diante dos homens; que talvez foi rico e poderoso; se está agora numa condição obscura e miserável, é por ter falido em suas terríveis provas, lembrando assim esta palavra célebre do ponto de vista das condições sociais: Não há senão um passo do Capitole à rocha Tarpéienne, mas com esta diferença de que, pela reencarnação, o Espírito se levanta de sua queda, e pode, depois de ter remontado ao Capitole, lançar-se de seu topo nas regiões celestes, morada esplêndida dos bons Espíritos. A reencarnação, ensinando aos homens, segundo a admirável expressão de Platão, que não há rei que não descenda de um pastor, e de pastor que não descenda de um rei, apaga todas as vaidades terrestres, desliga do culto material, nivela moralmente Iodas as condições sociais; constitui a igualdade, a fraternidade entre os homens, como para os Espíritos, em Deus e diante de Deus, e a liberdade que, sem a lei de amor e de caridade, não é senão mentira e utopia, assim como nos disse recentemente o Espírito de Washington. Em seu conjunto, o Espiritismo vem dar aos homens a unidade e a verdade em todo progresso intelectual e moral, grande e sublime empreendimento do qual não somos senão os muito humildes apóstolos. Adeus, meu caro senhor; depois de três meses de silêncio, sobrecarrego-vos com uma carta muito longa; responder-me-eis quando puderdes, e quando quiserdes. Proponho-me a fazer a viagem a Paris para ter o prazer de vos conhecer pessoalmente, de vos apertar fraternalmente a mão; minha saúde a isso se opõe até o presente. Podereis fazer desta carta o uso que julgardes conveniente; honro-me de ser, alta e publicamente, Espírita. Vosso muito devotado. Roustaing, advogado. Cada um apreciará como nós a justeza dos pensamentos expressos nessa carta; vê-se que, embora recentemente iniciado, o Sr. Roustaing passou a mestre no fato da apreciação; é que tem séria e profundamente estudado, o que lhe permitiu apanhar rapidamente todas as conseqüências dessa grave questão do Espiritismo, e que, ao contrário de muita gente, não se deteve na superfície. Nada tinha visto, disse ele, e estava convencido, porque lera e compreendera. Tem isso de comum com muitas pessoas, e sempre notamos que aquelas, longe de serem superficiais, são ao contrário as que refletem mais; ligando-se mais ao fundo do que à forma, para elas a parte filosófica é a principal, os fenômenos propriamente ditos são o acessório, e dizem que, então, mesmo que esses fenômenos não existissem, disso não restaria menos uma filosofia que sozinha resolve problemas insolúveis até este dia; a única que dá, do passado e do futuro do homem, a teoria mais racional; ora, eles preferem uma doutrina que explica àquela que nada explica, ou que explica mal. Quem reflete, compreende muito bem que se poderia fazer abstração das manifestações, e que a doutrina, com isso, não subsistiria menos; as manifestações vêm corroborá-la, confirmá-la, mas não lhe são a base essencial; o discurso de Channing, que acabamos de citar, disso é a prova, uma vez que, quase vinte anos antes do grande desdobramento das manifestações na América, unicamente o raciocínio o conduzira às mesmas conseqüências. Há um outro ponto pelo qual se reconhece também o Espírita sério; pelas citações que o autor dessa carta faz dos pensamentos contidos nas comunicações que recebe, prova que não está limitado a admirá-las como belos trechos literários, bons para se conservar num álbum, mas que os estuda, medita-os e deles tira proveito. Infelizmente, há tantos para quem esse alto ensinamento permanece uma letra morta; que colecionam belas comunicações, como certas pessoas colecionam belos livros, mas sem lê-los. Por outro lado, do que devemos felicitar o Sr. Roustaing, é da declaração pela qual termina a sua carta; infelizmente, nem todos têm como ele, a coragem de sua opinião, é o que encoraja os adversários. Entretanto, é preciso reconhecer que as coisas, há algum tempo, mudaram muito a esse respeito; há dois anos apenas que muitas pessoas não falavam do Espiritismo senão entre quatro olhos; não compravam os livros senão em segredo, e tinham um grande cuidado para não os deixar em evidência. Hoje, é muito diferente; já se está familiarizado com os epítetos descorteses dos zombadores, e ri-se disso ao invés de melindrar-se; não se teme mais confessar-se Espírita altamente, como não se teme dizer-se partidário de tal ou tal outra filosofia, do magnetismo, do sonambulismo, etc.; discute-se livremente com o primeiro que chega sobre essa matéria, como se discutiria sobre os clássicos e os românticos, e sem se crer humilhado por ser por uns ou pelos outros. É progresso imenso que prova duas coisas: o progresso das idéias Espíritas em geral, e a pouca consistência dos argumentos dos adversários; terá Por conseqüência impor silêncio a esses últimos, que se crêem fortes porque se crêem os mais numerosos; mas quando, por toda a Parte, encontrarem aquém falar, não dizemos que serão convertidos, mas se manterão em reserva. Conhecemos uma pequena cidade da província onde, há um ano, o Espiritismo não contava senão um único adepto que, apontado ao dedo como um animal curioso, se fora conhecido como tal; quem sabe mesmo? talvez deserdado pela sua família ou destituído de seu lugar; hoje, os adeptos ali são numerosos; reúnem-se abertamente sem se importarem do que se dirá, e quando foram vistos entre as autoridades municipais, funcionários, oficiais, engenheiros, advogados, notários, etc., que não escondiam a sua simpatia pela coisa, os zombadores deixaram de zombar, e o jornal da localidade, redigido por um espírito muito forte, que já dera algumas pontadas e se preparava para pulverizar a nova doutrina, temendo ter por detrás parte mais forte que a dele, prudentemente guardou silêncio. É a história de muitas outras localidades, e se generalizará à medida que os partidários do Espiritismo, cujo número aumenta todos os dias, elevarem a cabeça e a voz. Pode-se bem querer abater uma cabeça que se mostre, mas quando há vinte, quarenta, cem delas que não temem falar alto e firme, olhada duas vezes, e isso dá coragem àqueles que têm falta dela. |
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