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Apreciação da História do maravilhosoRevista Espírita, abril de 1861 do Sr. Louis Figuier, pelo Sr. Escande,redator da Mode Nouvelle.Nos artigos que publicamos sobre esta obra, nos preocupamos principalmente em procurar o ponto de partida do autor, e não nos foi difícil, citando as suas próprias palavras, provar que se baseia sobre as idéias materialistas. Sendo falsa a base, do ponto de vista pelo menos da imensa maioria dos homens, as conseqüências que ele tira delas contra os fatos que qualifica de maravilhoso, são, por isso mesmo, maculadas de erro. Isso não impediu, a alguns de seus confrades da imprensa, de exaltar o mérito, a profundidade e a sagacidade da obra. Entretanto, nem todos são dessa opinião. Encontramos, sobre esse assunto, na Mode Nouvelle (1- (1) Escritório, rua Saint-Anne, 63, n" de 22 d« fevereiro de 1861. Preço, por no., 1 fr.), jornal mais sério que o seu título, um artigo tão notável pelo estilo quanto pela justeza das apreciações. Sua extensão não nos permite citá-lo inteiramente, e, aliás, seu autor promete outros, porque neste se ocupa quase que do primeiro volume. Nossos leitores nos agradecerão por dar-lhes alguns fragmentos dele. I"Este livro tem grandes pretensões, e não justifica nenhuma. Ele gostaria de passar por erudito, afeta a ciência, ostenta um luxo aparente de pesquisas, e a sua erudição é superficial, sua ciência incompleta, suas pesquisas apressadas, mal digeridas. O Sr. Louis Figuier deu-se à especialidade de recolher, um a um, os milhares de pequenos fatos que se produzem, no dia de hoje, ao redor das academias, como essas longas fileiras de cogumelos que nascem ao sol da manhã sob as camadas criptoga-míferas, e deles se compõem, em seguida, livros que fazem concorrência à Cuisinière bourgeoise e aos tratados do Bonhomme Richard. Hábil nesse trabalho de composições fáceis,- inferior ao trabalho de compilação desse bom abade Trublet do qual Voltaire espirituosamente zombou, - e que lhe deixa forçosamente lazeres, ele se disse que não lhes seria mais difícil explorar a paixão do sobrenatural que excita, mais do que nunca, as imaginações, que não lhe era difícil utilizar os falatórios quase sempre ociosos da segunda classe do Instituto. Habituado a redigir revistas científicas com as repetições de outrem, com as abreviações de atas que ele abrevia a seu turno, com teses e memórias que analisa; hábil em fazer mais tarde, em volumes, essas reduções de reduções, ele, pois, se pôs à obra; e fiel ao seu passado, compulsou, às pressas, todos os tratados sobre a matéria que lhe caíram às mão, esmigalhou-os, depois reconstituiu essas migalhas ao seu modo, e com elas compôs um livro, depois do que não temos dúvida que ele não tenha exclamado, como Horácio: Exegi monumentum; "eu também, eu elevei o meu monumento e será mais durável do que o bronze!" "E haveria razão de estar confiante de seu amarrotamento, se a qualidade se medisse pela quantidade! Com efeito, ela não forma menos do que quatro grandes volumes, essa história do maravilhoso, e não contém senão a história do maravilhoso nos tempos modernos, desde 1630 aos nossos dias, apenas dois séculos, o que lhe suporia, ao menos, um pouco mais do dobro do que as mais volumosas enciclopédias, se contivesse a história do maravilhoso em todos os tempos e entre todos os povos! Também, quando se pensa que esse fragmento de monografia, de tão vasta extensão, não lhe custou senão alguns meses de trabalho, é-se primeiro tentado em crer que essa criação, ao mesmo tempo tão grossa e tão apressada, é mais maravilhosa do que as maravilhas que contém. Mas essa fecundidade deixa de ser um prodígio, quando se estuda de perto o procedimento de composição do qual se fez uso, e, é verdadeiro dizer, lhe é tão familiar que não se podia esperar que lhe empregasse um outro. Em lugar de condensar os fatos, de expô-los sumariamente, de negligenciar os detalhes inúteis, de se apegar sobretudo em colocar em relevo as circunstâncias características, e de discuti-las em seguida, ele estudou unicamente para escrever um folhetim mais longo do que aquele que ele escreve semanalmente na Presse. Armado de um par de tesouras, recortou, nas obras anteriores à sua, o que favorecia as idéias preconcebidas que ele desejava fazer triunfar, descartando o que poderia contrariar a opinião que se formou, a príorí, sobre essa importante questão, o que sobretudo poderia contrariar a explicação natural que se propunha dar das manifestações, qualificadas de sobrenaturais, pelo que os livres pensadores são unânimes em chamar a credulidade pública. Porque é ainda uma das pretensões de seu livro, - e essa pretensão não está melhor justificada do que as outras, - aquela de lhe dar uma solução física ou médica nova, encontrada por ele, solução triunfante, inatacável, doravante ao abrigo das objeções dos homens bastante simples para crerem que Deus é mais poderoso que os nossos sábios. Ele o repete, em cem lugares de sua obra, a fim de que ninguém o ignore, e com a esperança que se acabará por crê-lo, embora se limite a repetir o que se disse a esse respeito, antes dele, todos aqueles, físicos ou médicos, filósofos ou químicos, que têm mais horror ao sobrenatural do que Pascal não tinha horror ao vazio. "Resulta disso que a essa história do maravilhoso falta, ao mesmo tempo, autoridade e proporções. Do ponto de vista dogmático, ela não ultrapassa as negações dos negadores anteriores, não acrescenta nenhum argumento que já desenvolveram, e nessa questão, como em todas outras, não compreendemos a utilidade dos ecos. Há mais: atormentado pelo desejo de parecer fazer melhor do que Calmeil, Esquiros, Montègre, Hecquet e tantos outros que o precederam, e serão sempre os seus mestres, o Sr. Louis Figuier se perde freqüentemente no labirinto confuso de demonstrações que lhes toma emprestado, querendo apropriá-las, e acaba, às vezes, por rivalizar de lógica com o Sr. Babinet. Quanto aos fatos, ele os acumulou em imensa quantidade, embora um pouco ao acaso, mutilando uns, afastando outros, se interessando em reproduzir de preferência aqueles que pudessem oferecer um certo atrativo à leitura; o que prova que ele visou principalmente um sucesso fácil, a lutar com interesse com os romancistas atuais, e nos perguntamos como não convidou o editor para compreender a sua obra na divertida Bibliothèque dês chemins de fer, a fim de que fosse mais direto em direção dessa multidão de leitores que lêem para se distrair e de nenhum modo para instruir-se. "E seu livro é divertido, não o contestamos, se basta a um livro, para possuir esse mérito parecer-se a uma coleção de anedotas composta de historietas acumuladas em face do pitoresco, sem muito cuidado com a verdade; o que não impede de vangloriar-se com isso, a propósito e fora de propósito, de sua imparcialidade, de veracidade: - uma pretensão a mais a acrescentar a todas aquelas que revelamos, e na qual ele se impertiga com tanto mais afetação, que não dissimula o quanto ela lhe faz falta. - Tal como é, não saberíamos melhor compará-lo senão com esses restaurantes-ônibus, pródigos de comestíveis, que quase nada têm de sedução senão a aparência, que servem aos consumidores um pouco ao acaso do garfo. Mais superficial do que profundo, o importante é sacrificado ao fútil, o principal ao acessório, o lado dogmático ao lado episódico; as lacunas aí são abundantes, aliás tanto quanto as coisas inúteis, e a fim de que nada lhe falte, está cheio de contradições, afirmando aqui o que nega adiante, se bem que se seria tentado em crer que, diferentemente nisso do célebre Pico de Miran-dola, - capaz de dissertar de omnire scibili, - O Sr. Louis Figuier empreendeu ensinar aos outros o que ele mesmo não sabia. IINão poderíamos limitar aí o exame dessa história do maravilhoso, se não tivéssemos que justificar estas severas mas justas apreciações. E, primeiro, temos necessidade de acrescentar que aquele que a escreveu, não crê na possibilidade do sobrenatural? Não pensamos assim. Em sua qualidade de acadêmico supernumerário, - um supernumerariato que, provavelmente, não terminará com a sua vida; - em virtude dos poderes que conferem o seu título de folhetinista científico, não poderia sustentar outra tese, sem se expor a ser colocado no index pelo exército dos incrédulos, do qual se presume suscetível de fazer parte. Ele não crê mais, e, a esse respeito a sua incredulidade está acima da suposição. É do número "desses espíritos sábios que, testemunhas do transbordamento imprevisto do maravilhoso contemporâneo, não podem compreender um tal desvio em pleno século dezenove, com uma filosofia avançada, e no meio desse magnífico movimento científico que dirige tudo, hoje, para o positivo e o útil." - Reconhecemos que deve ser penoso para "esses espíritos sábios" ver que o espírito público se recusa assim a despojar-se de seus velhos preconceitos, e persiste em ter crenças outras do que aquelas do positivismo filosófico, que são, entretanto, as de todos os animais. Esse mau gosto, de resto, não data somente de nossos dias. O Sr. Louis Figuier confessa-o, não sem despeito, quando se lhe pergunta, em termos admirados, como ocorreu que o maravilhoso resistisse ao século dezoito, "no século de Voltaire e da Encyclopédie, ao passo que os olhos se abriram às luzes do bom senso e da razão." Que fazer aí? Essa crença no maravilhoso é tão vivaz, consagrada por todas as religiões, que foi a de todos os tempos, de todos os povos, sob todas as latitudes e sobre todos os continentes, que os livres pensadores, satisfeitos por tê-la sacudido por si mesmo e para si mesmos, demonstrariam sabedoria abstendo-se, doravante, de um proselitismo cujo insucesso sabem inevitável. "Mas o Sr. Louis Figuier não é desses corações pusilânimes que se assustam com o avanço da inutilidade de seus esforços. Cheio de confiança e de suficiência em sua força, ele se gaba de realizar o que Voltaire, Diderot, Lamétrie, Dupuis, Volney, Dulaure, Pigauft-Lebrun, o que Dulaurens com o seu Compare Mathieu, o que os químicos com os seus alambiques, os físicos com as suas pilhas elétricas, os astrônomos com os seus compassos, os panteístas com os seus sofismas e os gracejadores com o seu ceticismo de mau quilate, foram impotentes para realizar. Ele se propôs demonstrar, nova e triunfalmente, esta lei de que "o sobrenatural não existe, que jamais existiu," e por conseqüência que "os prodígios antigos e contemporâneos podem ser todos atribuídos a uma causa natural. "A empreitada é árdua, os mais intrépidos, até aqui, apenas sucumbiram; mas "semelhante conclusão, que necessariamente afastaria todo agente sobrenatural, seria uma vitória obtida pela ciência sobre o espírito de superstição, em grande benefício da razão e da dignidade humanas," e essa vitória favoreceu a sua ambição; - vitória facilitada, apesar de tudo, mais fácil do que o suporíamos, se o Sr. Louis Figuier não se tiver enganado Zjuando disse, em sua introdução, que "nosso século se inquieta muito pouco com matérias teológicas e disputas religiosas." Então, por que se armar em guerra contra uma crença que não existe? Por que atacar opiniões teológicas com as quais não temos nenhuma inquietação? Por que prender-se a superstições religiosas que não nos preocupam mais? "Vencendo-se sem perigo, triunfa-se sem glória," disse o poeta, e não convém fazer soar tão alto a trombeta guerreira, se não se combate senão os moinhos de vento. Que quereis? O Sr. Louis Figuier esqueceu, escrevendo isso, o que escrevera mais acima, quando confessara, com a vergonha no rosto, que o nosso século, surdo às lições da Encyclopédie, e aos ensinamentos da imprensa irreligiosa, subitamente se apaixonara do maravilhoso e acreditava mais do que seus predecessores no sobrenatural, aberração incompreensível da qual ambicionava curá-lo. Mas essa contradição é tão mínima que talvez não valia a pena ser realçada: veremos muitas outras, e ainda seremos obrigados a negligenciar muitas! Portanto, o Sr. Louis Figuier nega que se produzissem em nossos dias e que tenham se produzido em algum tempo as manifestações sobrenaturais. Em fato de milagre, não há senão a ciência que tenha o poder de fazê-lo: o poder de Deus jamais foi até ali. Ainda quando dizemos que Deus não tem esse poder, temos uma espécie de escrúpulo em traduzir o seu pensamento. Reconhece-se um outro deus que o deus natureza, tão admirável em sua inteligência cega, e que realiza maravilhas sem disso desconfiar, deus querido dos sábios, porque é muito indulgente para deixá-los crer que usurpam, diariamente, um fragmento de sua soberania? É uma questão que não nos permitimos aprofundar. "Mediocremente maravilhosa, essa história do maravilhoso começa por uma introdução que o Sr. Louis Figuier chama um golpe de vista lançado sobre o sobrenatural na antigüidade e na Idade Média, da qual não diremos nada porque não teríamos muito a dizer. As mais importantes manifestações ali estão desfiguradas, sob pretexto de resumo, e compreende-se que nos seriam necessários muito tempo e espaço para restituir a sua verdadeira fisionomia no meio dos fatos que nela não figuram senão no estado de resumo. "O edifício é digno do peristilo; essa história do maravilhoso, durante esses dois últimos séculos, se abre pela narração do caso de Urbain Grandier e dos religiosos de Loudun; vem em seguida a varinha adivinhatória, os Tremedores das Cévennes, os Convulsionários jansenistas, Cagliostro, o magnetismo e as mesas girantes. Mas da possessão de Louviers nenhuma palavra, e nenhuma palavra, não mais, dos iluminados, dos Martinistas do swedenborgismo, dos estigmatizados do Tirol, da notável manifestação das crianças na Suécia, não faz cinqüenta anos; apenas ali foi dita uma palavra dos exorcismos do padre Gassner, e menos de uma página insignificante ali foi consagrada à vidente de Prevorst. O Sr. Louis Figuier melhor faria se intitulasse seu livro: Episódios da história do maravilhoso nos tempos modernos; ainda os episódios que ele escolheu podem dar lugar a sérias objeções. Ninguém nunca atribuiu aos passes de mágica de Cagliostro uma significação sobrenatural. Era um hábil intrigante, que possuía alguns segredos curiosos, dos quais soube habilmente se servir para ofuscar aqueles que queria explorar, e que possuía sobretudo numerosos cúmplices. Cagliostro merecia antes achar lugar na galeria dos precursores revolucionários do que no pandemônio dos feiticeiros. Não vemos igualmente o que o magnetismo tenha a fazer nessa história do maravilhoso, sobretudo do ponto de vista em que o Sr. Louis Figuier se colocou. O magnetismo ressalta da Academia de medicina e da Academia de ciências, que o desdenharam muito; mas ele não pode interessar o supernaturalismo senão por ocasião de algumas de suas manifestações, aquelas que o Sr. Louis Figuier, de resto, negligenciou, a fim de reservar o espaço que consagrou à narração da vida de Mesmer, das experiências do marquês de Puységur e do incidente relativo ao famoso relatório do Sr. Husson. Tratamos, há dois anos, dessa importante questão, e não retornaremos a ela, porque não poderíamos repetir. Deixaremos assim de lado a das mesas girantes, que examinamos na mesma época. Haveria, entretanto, muito a dizer sobre a explicação natural e física que o Sr. Louis Figuier pretende fornecer dessa dança das mesas e das manifestações que lhe são a conseqüência; mas é necessário saber limitar-se. Deixemo-lo, pois, debater-se com a Revue spiritualiste e com a Revue spiríte, duas revistas publicadas em Paris pelos adeptos da crença na manifestação dos Espíritos, que o acusam de haver escrito o seu requisitório sem ter, antes, ouvido as testemunhas e consultado as peças do processo. Uma e outra pretendem que nunca assistiu senão a uma única sessão espiritualista, e que em sua chegada, teve o cuidado de declarar que a sua opinião era decreto, e que nada faria mudá-la. "Isso é verdade? Não sabemos. Tudo o que podemos afirmar é que, depois de ter repelido, com justa razão, a solução do Sr. Babinet, pelos movimentos nascentes e inconscientes, e acabado por adotar, por sua própria conta, tanto é inconsciente ele mesmo do que pensa e do que escreve, e eis a prova. "Nessas reuniões de pessoas fixamente ligadas, disse ele, durante vinte minutos ou meia hora, para formar a cadeia, as mãos postas abertas sobre uma mesa, sem ter a liberdade de distrair um instante a sua atenção da operação da qual tomavam parte, o maior número não sentia nenhum efeito particular. Mas é bem difícil que uma delas, uma só querendo-se, não caia, por um momento, presa do estado hipnótico ou biológico. (O hipnotismo fornece-lhe uma resposta para tudo, como veremos mais tarde.) Não é necessário, talvez, senão um segundo de duração desse estado para que o fenômeno esperado se realize. O membro da cadeia cai nesse meio-sono nervoso, não tendo mais consciência de seus atos, e não tendo outro pensamento senão a idéia fixa da rotação da mesa, imprime com o seu desconhecimento o movimento ao móvel." Que não começa, então, por zombar de si mesmo, uma vez que lhe agradava zombar do Sr. Babinet? Aqui fora lógico, sobretudo depois de ter anunciado que vinha esclarecer o mistério e do momento que não colocava em sua lanterna senão um coto de vela tão ridículo quanto aquele que alumiara precedentemente o sábio acadêmico. Mas a lógica e o Sr. Louis Figuier se divorciaram nessa história do maravilhoso. Ai de mim! Os ecos bem pretenderam que vão falar, seus esforços não vão chegar a repetir o que ouvem. "Quanto aos longos capítulos que consagra à varinha adivinhatória, e em particular a Jacques Aymar, permitimo-nos primeiro fazer-lhe observar que se engana se pensa que esse problema foi suficientemente estudado pelo Sr. Chevreul. É uma ilusão que ele pode deixar, se bem lhe parece, a esse sábio; mas fora da Academia de ciências, não encontrará ninguém que admita que a teoria do pêndulo explorador responde a todas as objeções. A palavra emprestada a Galileu: "E entretanto ela gira!" Não é sem uma aplicação possível à varinha adivinhatória. Ela girou e gira, a despeito dos céticos que negam o movimento, porque se recusam a vê-lo; e os milhares de exemplos que poderíamos citar, -e que o próprio Sr. Louis Figuier cita, - atestam a realidade do fenômeno. Gire ela por um impulso diabólico ou espírita, como se diria hoje, ou bem sob a impressão que ela receba alguns fluidos desconhecidos? De boa vontade rejeitamos toda influência sobrenatural, embora possa ser admitida em certos casos. O que não nos parece provado é a não existência de fluidos desconhecidos. O fluido magnético conta, entre outros, com numerosos partidários, cujas afirmações merecem tanta autoridade quanto as negações de seus adversários. Qualquer que seja, a baqueia adivinhatória cumpriu maravilhas que podem nada ter de sobrenatural, mas que a ciência é incapaz de explicar, ela que os explica muito pouco, aliás, de todas aquela que vemos se produzirem a cada dia ao nosso redor, na vida do menor talo de erva. A modéstia é uma virtude que lhe falta, e que fará adquirir sabiamente. "Entre outras maravilhas, aquelas que realizou Jacques Aymar, das quais falaremos daqui a pouco, mereciam ser reportadas longamente. Um dia, entre outros, foi chamado a Lyon, no dia seguinte ao de um grande crime cometido nessa cidade. Armado de sua varinha, ele explorou a adega que fora o teatro, declarou que os assassinos eram em número de três; depois se pôs a seguir os seus traços, que o conduziram à casa de um jardineiro, cuja casa estava situada na margem do Rhône, e afirmou que ali eles entraram, que ali beberam mesmo uma garrafa de vinho. O jardineiro protestou ao contrário; mas seus jovens filhos interrogados confessaram que vieram três indivíduos, na ausência de seu pai, e que lhes venderam vinho. Então Aymar se pôs em caminho, - sempre conduzido pela sua varinha, - descobriu o lugar onde embarcaram sobre o Rhône, colocou-se ele mesmo num bote, desceu para todos os lugares onde eles desceram, chegando ao campo de Sablon, entre Viena e Saint Vallier, constatou que ali ficaram alguns dias, pondo-se em sua perseguição, e chegando, de etapa em etapa, até Beaucaire, em plena feira, da qual percorreu as ruas atravancadas de povo, detendo-se diante da porta da prisão onde entrou e designou um pequeno corcunda como sendo um dos assassinos. Suas investigações lhe fizeram achar em seguida que os outros tinham se dirigido do lado de Nímes; mas os agentes de autoridade não quiseram levar mais longe as suas pesquisas. O corcunda, conduzido a Lyon, confessou o seu crime, e foi esfolado vivo. "Eis a exploração de Jacques Aymar, e as explorações tão surpreendentes como aquela são numerosas em sua vida. O Sr. Louis Figuier a admite em todas as suas circunstâncias. Aliás, não poderia fazer de outro modo, uma vez que está atestado por centenas de testemunhas, das quais não é permitido suspeitar a veracidade, "por três narrações e várias cartas concordantes escritas pelas testemunhas e pelos magistrados, homens igualmente honrados e desinteressados, e que ninguém, no público contemporâneo, não supôs um acordo verdadeiramente impossível entre eles." Mas como aqui uma explicação física não podia mesmo ser tentada, eles se viam obrigados a renunciar o seu procedimento ordinário, e lançar-se num labirinto de suposições mais engenhosas do que verossímeis. Ele transforma Jacques Aymar em um agente de polícia, de uma perspicácia a distanciar à do Sr. de Sartines, por célebre que ela seja. Junto dele os nossos chefes da polícia de segurança, os mais inteligentes, não seriam senão escolares. Supõe, pois, que esse girar da varinha, durante três ou quatro horas que passou em Lyon, antes de começar as suas experiências, teve tempo de tomar as informações e descobrir o que as próprias autoridades judiciárias ignoravam. Ele segue para a casa do jardineiro, porque era presumível que os assassinos tinham embarcado sobre o Rhône, a fim de distanciarem mais depressa; adivinhou que tinham bebido vinho, porque deveriam ter sede; abordou a margem desse rio por toda parte por onde se soube mais tarde que haviam realmente abordado, porque os lugares habituais de abordagem lhe eram conhecidos; deteve-se no campo de Sablon, porque era evidente que eles quiseram se dar o espetáculo dessa reunião de quadrilhas; foi a Beaucaire, porque era certo que o desejo de dar ali algum bom golpe, de sua profissão, para lá os conduzira; deteve-se, enfim, diante da porta da prisão, porque era provável que algum dentre eles tivera a imperícia de se fazer deter. "Eis porque a vossa filha é muda!" Disse Sganarelle; e o Sr. Louis Figuier não disse melhor e nem de outro modo. Ele crê, sobretudo, triunfar, porque Jacques Aymar, tendo sido chamado mais tarde a Paris, pelo ruído de seu renome, viu a sua perspicácia sofrer fracassos reais, ao lado de alguns sucessos também reais. Mas esses eclipses, que lhe valeram um certo desfavor, o Sr. Louis Figuier deveria, menos do que qualquer outro, fazer-lhe uma censura; menos do que qualquer outro, poderia disso se autorizar para declará-lo um impostor, e ele que sabe, melhor do que ninguém, ele que reconhece, a propósito do magnetismo, que essas espécies de experiências são caprichosas, e dão certo um dia para fracassar no outro. A essa inconseqüência, enfim, ele lhe acrescenta uma segunda, menos desculpável. Não contente de acusar Jacques Aymar de charlatanismo, pronuncia a mesma condenação contra quase todos os giradores de varinha, do qual narra os fatos e gestos e na discussão entretanto, ele disse: "Entre os numerosos adeptos práticos, só um pequeno número era de má fé; ainda não o eram sempre; o maior número operava com uma inteira sinceridade. A varinha girava positivamente entre suas mãos, independente de todo artifício, e o fenômeno, enquanto fato, era bem real." Bem, muito bem, não se pode melhor, a verdade aí está. Mas como e por quê girá-la? Impossível escapar a esta interrogação indiscreta. Ora, o Sr. Figuier assim a responde: "Esse movimento do bastão se operava em virtude de um ato de seu pensamento e sem que tivesse nenhuma consciência dessa ação secreta de sua vontade." Sempre esta inconsciência, mais maravilhosa do que o maravilhoso que se recusa! Nisso acreditará quem quiser." ESCANDE. |
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