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Ensinamento dos Espíritos

Revista Espírita, fevereiro de 1861

Ditados espontâneos obtidos ou lidos na Sociedade por diversos Médiuns.

O ano de 1860

(Médium, senhora Costel.)

Falarei da necessidade filosófica em que se encontram os Espíritos de, freqüentemente, refletir sobre a sua conduta, levar, enfim, ao estado de seus cérebros o mesmo cuidado que cada um toma com o seu corpo. Eis um ano terminado; que progresso trouxe no mundo intelectual? De muito grande, de muito sérios resultados, sobretudo na ordem científica. A literatura, menos feliz, não teve senão fragmentos, detalhes encantadores; mas como uma estátua mutilada que se encontra enterrada, e que se admira, lamentando o conjunto de sua beleza, a literatura não oferece nenhuma obra séria. Na França, ordinariamente, ela caminha à frente das outras artes; este ano foi ultrapassada pela pintura que floresce, gloriosa, acima das escolas rivais. Por que esse tempo de parada entre os nossos jovens escritores? A explicação é fácil. Falta-lhes o sopro generoso que inspira as lutas; a indiferença pesa sobre eles; folheiam-nos, são criticados, não são discutidos apaixonadamente como no meu tempo em que a luta literária dominava quase todas as preocupações. Depois, não se improvisa um escritor, e é pouco o que cada um faz. Para escrever são necessários longos e profundos estudos, eles faltam absolutamente à vossa geração, impaciente com o dia e preocupada, antes de tudo, com o sucesso fácil. Eu termino admirando a marcha ascensional da ciência e das artes, e lamentando a ausência do generoso impulso nos espíritos e nos corações.

J. J. ROUSSEAU.

Nota. Esta comunicação, obtida espontaneamente, prova que os Espíritos, que deixaram a Terra, se ocupam ainda com o que aqui se passa, que se interessam e seguem o movimento do progresso intelectual e moral. Não é das profundezas infinitas do espaço que poderiam fazê-lo; é necessário, para isso, que estejam entre nós, no nosso meio, e testemunhas invisíveis do que se passa. Esta comunicação, e a seguinte, foram dadas na sessão da Sociedade do dia 28 de dezembro, onde havia a questão do ano que se findava e aquele que ia começar; por conseguinte, estava muito a propósito.

O ano de 1861

O ano que se extingue viu progredir sensivelmente as crenças espíritas. Foi uma grande felicidade para os homens, porque isso os retém um pouco na borda do abismo que ameaça engolir o espírito humano. O ano novo será melhor ainda, porque verá sérias mudanças materiais, uma revolução nas idéias, e o Espiritismo não será esquecido, crede-o bem: ao contrário, a ele se agarrará como a uma pedra de salvação. Eu pedirei a Deus para bendizer a vossa obra e fazê-la progredir.

SÃO LUÍS

Nota. Numa sessão íntima, um outro médium teve, espontaneamente, sobre o mesmo assunto, a comunicação seguinte:

O ano que vai se abrir contém em suas dobras as maiores coisas. A reação vai moderar na armadilha que lhe estendeu. Por que pensais que a Terra se cobre de vias férreas, e de que o mar se entreabre à eletricidade se não for para difundir a boa nova? O verdadeiro, o bom, o belo serão, enfim, compreendidos por todos. Não vos canseis, pois, os verdadeiros espíritas, porque a vossa tarefa está marcada na obra da regeneração; felizes aqueles que a souberem cumprir!

LÉON J... (irmão do médium).

Sobre o mesmo assunto (por um outro médium)

A mudança é de toda necessidade; o progresso é a lei divina; parece que foi lançado, nestes últimos anos, mais que outros. Relativamente a 1860, 1861 será magnífico, e pálido olhando-se 1862, porque quereis partir, caros irmãos, e quando uma vez o sopro divino faz ir a locomotiva, não há mais descarrilhamento possível.

LÉON X

Comentário sobre o ditado publicado sob o título de: O Despertar do Espírito

Numa comunicação que o Espírito Georges ditou à senhora Gostei, e que foi publicada na Revista de 1860, página 332, sob o título de o Despertar do Espírito, foi dito que não há relações amigáveis entre os Espíritos errantes; que aqueles mesmos que se amaram não trocam sinais de reconhecimento. Essa teoria causou, sobre muitas pessoas, uma impressão tanto mais penosa, porque os leitores da Revista consideram esse Espírito como elevado, e admiraram a maioria de suas comunicações. Se essa teoria fosse absoluta, estaria em contradição com o que foi dito, tão freqüentemente, que no momento da morte, os Espíritos amigos vêm receber o novo que chega, ajudam-no a se livrar dos seus laços terrestres, e o iniciam, de algum modo, na sua nova vida. De um outro lado, se os Espíritos inferiores não se comunicam com os Espíritos mais avançados, eles não poderiam se melhorar.

Tentamos refutar essas objeções num artigo da Revista de 1860, página 342, sob o título de Relações afetivas dos Espíritos, mas eis o comentário que, a nosso pedido, o próprio Georges deu à sua comunicação:

"Quando um homem, surpreendido pela morte, nos seus hábitos materialistas de uma vida que nunca lhe deixou tempo para se ocupar de Deus; quando, tudo palpitando ainda das angústias e dos medos terrestres, ele chega ao mundo dos Espíritos, parece um viajante que ignora a língua e os costumes do país que visita. Mergulhado na perturbação, é incapaz de se comunicar e compreender nem as suas próprias sensações, nem as dos outros; erra envolvido de silêncio; então sente germinar, eclodir e se desenvolver lentamente, pensamentos desconhecidos, e uma nova alma floresce na sua. Chegado a este ponto, a alma cativa sente caírem seus laços, e, como um pássaro entregue à liberdade, ela se lança para Deus, lançando um grito de alegria e de amor; então pressente, ao seu redor, os Espíritos dos parentes, dos amigos purificados que, silenciosamente, acolheram, a sua chegada entre eles. São em pequeno número aqueles que podem, logo depois da libertação do corpo, comunicar-se com os seus amigos reencontrados; é necessário ter o mérito, e não são senão aqueles que cumpriram gloriosamente as suas últimas migrações que estão, desde o primeiro momento, bastante desmaterializados para gozarem desse favor que Deus concede como recompensa.

"Apresentei uma das fases da vida espírita; não entendi generalizar, e, como se vê, não falei senão do estado dos primeiros instantes que se seguem à morte, e esse estado pode durar mais ou menos muito tempo, segundo a natureza do Espírito; depende de cada um abreviá-lo em se desligando dos laços terrestres da vida corpórea, porque não é senão o agarramento às coisas materiais que impede de gozar da felicidade da vida espírita."

GEORGES

Nota. Nada é mais moral do que essa doutrina, porque ela mostra que nenhum dos gozos que a vida futura nos promete pode ser obtido sem merecê-lo; que a própria felicidade de rever os seres que nos são caros, e de conversar com eles, pode ser adiada; em uma palavra, que a situação na vida espírita, em todas as coisas, é o que a fazemos pela nossa conduta na vida corpórea.

Os três tipos

(continuação.)

Nota. Nos três ditados seguintes, o Espírito desenvolve cada um dos três tipos que ele esboçou no primeiro. (Vede o n9 de janeiro de 1861, página 29.)

I

No vosso mundo, aqui embaixo, o interesse, o egoísmo e o orgulho abafam a generosidade, a caridade e a simplicidade. O interesse e o egoísmo são os dois maus gênios do financeiro e do bem sucedido; o orgulho é o vício daquele que sabe, e sobretudo daquele que pode. Quando um coração verdadeiramente pensador examina esses três vícios horrendos, ele sofre; porque, estejais bem seguros disso, o homem que medita sobre o nada e a maldade desse mundo, é ordinariamente um homem cujos sentimentos e instintos são delicados e caridosos; e, vós o sabeis, os delicados são infelizes, disse Lafontaine, que me esqueci de pôr ao lado de Molière; só os delicados são infelizes, porque eles sentem.

Hamlet é a personificação dessa parte infeliz da Humanidade, que chora e que sofre sempre, e que se vinga vingando Deus e a moral. Hamlet teve vícios vergonhosos para punir em sua família: o orgulho e a luxúria, quer dizer, o egoísmo. Essa alma terna e melancólica, aspirando à verdade, se deslustra ao sopro do mundo, como um espelho que não pode mais refletir o que é bom e o que é justo; e essa alma tão pura verteu o sangue de sua mãe e vingou a sua honra. Hamlet é a inteligência impotente, o pensamento profundo lutando contra o orgulho estúpido e contra a impudicícia materna. O homem que pensa e vinga um vício da Terra, qualquer que seja, é culpado aos olhos dos homens, e, freqüentemente, não o é diante de Deus. Não credes que quero idealizar o desespero: já fui bastante punido! Mas há tais nevoeiros diante dos olhos do mundo!

Nota. O Espírito, pedindo-lhe para dar a sua apreciação sobre Lafontaine, do qual vem de falar, acrescentou:

Lafontaine não é conhecido que não são conhecidos Corneille e Racine. Conheceis apenas os vossos literatos, e os Alemães, entretanto, conhecem Shakespeare, como Goethe. Lafontaine, para retornar ao meu assunto, é o Francês por excelência, escondendo a sua originalidade e a sua sensibilidade sob os nomes de Eso-po e de alegre pensador; mas, estejais seguros disso, Lafontaine era um delicado, como vo-lo disse há pouco; vendo que não era compreendido afetou essa bonomia que chamais falsa; em vos sós dias teria sido alistado no regimento dos falsos homens. A verdadeira inteligência não é falsa, mas, freqüentemente, é preciso uivar com os lobos, e foi o que perdeu Lafontaine, na opinião de muita gente. Não vos falo de seu gênio: ele é igual, se não for superior ao de Molière.

II

Don Juan, para retornarmos ao nosso pequeno curso de literatura muito familiar, é como já tive a honra de vos dizer, o tipo mais perfeitamente pintado do nobre corrompido e blasfemador. Molière elevou-o até o drama, porque efetivamente a punição de don Juan não deveria ser humana, mas divina; é pelos golpes inesperados da vingança celeste que caem essas cabeças orgulhosas; o efeito é tanto mais dramático e mais imprevisto.

Eu disse que don Juan era um tipo; mas, verdadeiramente dizendo, é um tipo raro; porque, em realidade, vêem-se poucos homens dessa tempera, porque quase sempre são todos frouxos; entendo a classe dos embotados e dos corrompidos.

Muitos blasfemam; poucos, eu vos asseguro, ousam blasfemar sem medo. A consciência é um eco que lhes rejeita a sua blasfêmia, e escutam-na tiritantes de medo, mas riem diante do mundo; é o que se chamam hoje os fanfarrões do vício. Essa espécie de libertinos é numerosa em vossa época, mas estão longe de serem os filhos de Voltaire.

Molière, para voltar ao nosso assunto, sendo o mais sábio autor, e observador mais profundo, não somente castigou os vícios que atacam a Humanidade, mas castigou também aqueles que ousam dirigir-se a Deus.

III

Até o presente vimos dois tipos: um, generoso e infeliz; o outro, feliz segundo o mundo, mas bem miserável diante de Deus. Resta-nos ver o mais feio, o mais ignóbil, o mais repelente; quero dizer Tartufo.

Na antigüidade, a máscara da virtude era já horrenda, porque, sem estar depurada pela moral cristã, o paganismo tinha também virtudes e sábios; mas diante do altar do Cristo, essa máscara é mais hedionda ainda, porque é a do egoísmo e da hipocrisia. O Paganismo talvez teve menos Tartufos do que a religião cristã; explorar o coração do homem sábio e bom, gabá-lo em todas as suas ações, enganar as pessoas confiantes por uma aparente piedade, impelir a profanação até receber a Eucaristia com o orgulho e a blasfêmia no coração, eis o que faz Tartufo, o que fez e o fará sempre.

Ó vós! Homens imperfeitos e mundanos, que condenais um princípio divino e uma moral sobre-humana, porque quereis abusar deles, sois cegos quando confundis os homens e esse princípio, quer dizer, Deus e a Humanidade. É porque esconde as suas torpezas sob um manto sagrado que Tartufo é hediondo e repelente. Maldição sobre ele, porque ele maldizia então quem se fizesse perdoar; ele meditava a traição quando pregava a caridade.

Gérard DE NERVAL.

A harmonia

(Médium, Sr. Alfred Didier.)

Freqüentemente vistes, em certas regiões, particularmente na Provence, as ruínas dos grandes castelos; um torreão fortificado se levanta, algumas vezes, no meio de uma imensa solidão, e seus restos tristes e melancólicos, nos reportam a uma idade onde a fé era talvez ignorante, mas a arte e a poesia se elevaram com essa mesma fé tão ingênua e tão pura. Estamos, como vedes, em plena Idade Média. Freqüentemente tendes pensado que o autor dessas muralhas desmanteladas, o elegante capricho de uma castelã fizera correr cordas harmoniosas que se chamavam a harpa de Eole? Ah! Quão depressa que o vento os faz tremer desapareceram o torreão, castelã, harmonia! Essa harpa de Eole embalava o pensamento dos trovadores e das senhoras; era com um religioso recolhimento que era escutado.

Tudo acaba sobre a vossa Terra; a poesia aí raramente desce do céu, e passa logo; nos outros mundos, ao contrário, a harmonia é eterna, e o que a imaginação humana pode inventar, não se iguala com essa constante poesia que, não só está nos corações dos Espíritos puros, mas também em toda a Natureza.

Réné DE PROVENCE.

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