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Dissertações EspíritasRevista Espírita, dezembro de 1860 Obtidas ou lidas na Sociedade por diversos Médiuns Entrada de um culpado no mundo dos Espíritos(Méd., senhora Costel.) Vou contar-te o que sofri quando morri. Meu Espírito, retido ao meu corpo por laços materiais, teve grande dificuldade para dele se desembaraçar; o que foi u ma primeira e rude angústia. A vida que eu deixara há vinte e quatro anos estava ainda tão forte em mim que eu não acreditava em sua perda. Eu procurava o meu corpo e me admirava e aterrorizava por me ver perdido no meio dessa multidão de sombras. Enfim, a consciência de meu estado, e a revelação das faltas que cometera em todas as minhas encarnações, me feriram de repente; uma luz implacável clareou as mais secretas dobras de minha alma, que se sentiu nua e depois tomada de uma vergonha acabrunhante. Eu procurava a isso escapar interessando-me por objetos novos, e entretanto conhecidos, que me cercavam; os Espíritos radiosos, flutuando no éter, davam-me a idéia de uma felicidade à qual não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, umas mergulhadas num melancólico desespero, as outras irônicas ou furiosas, deslizavam ao meu redor e sobre a Terra à qual eu permanecia amarrado. Eu via se agitarem os humanos dos quais invejava a ignorância; toda uma ordem de sensações desconhecidas, ou reencontradas, me invadiam ao mesmo tempo. Arrastado como por uma força irresistível, procurando fugir dessa dor obstinada, eu transpunha as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas da natureza, nem os esplendores celestes pudessem acalmar um instante o dilaceramento de minha consciência nem o pavor que me causava a revelação da eternidade. Um mortal pode pressentir as torturas materiais pelo estremecimento da carne, mas as vossas frágeis dores, abrandadas pela esperança, temperadas pelas distrações, mortas pelo esquecimento, não poderão jamais vos fazer compreender as angústias de uma alma que sofre sem trégua, sem esperança, sem arrependimento. Passei um tempo, do qual não posso apreciar a duração, invejando os eleitos, cujo esplendor eu entrevia, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com seus escárnios, desprezando os humanos dos quais via as torpezas, passando de um profundo acabrunhamento à uma revolta insensata. Enfim, tu me apaziguastes; escutei os ensinamentos que te dão os teus guias; a verdade me penetrou, eu orei: Deus me ouviu; revelou-se a mim pela sua clemência, como se revelara pela sua justiça. novel Castigo do egoísta(Médium, senhora Costel.) Nota. O Espírito que ditou as três comunicações seguintes é o de uma mulher que o médium conheceu quando viva, e cuja conduta e caráter não justificam senão muito os tormentos que ela suporta. Era sobretudo dominada por um sentimento excessivo de egoísmo e de personalidade, que se reflete na última comunicação, pela sua pretensão em querer que o médium não se ocupe senão dela, e renuncie por ela os seus estudos ordinários. IEis-me, eu, a infeliz Claire; que queres que eu te ensine? Tua resignação e a esperança não são senão palavras para aquele que sabe, que inumeráveis como os cascalhes soltos da praia, os seus sofrimentos ficarão durante a sucessão dos séculos intermináveis. Eu posso abrandá-los, dizes! Que palavra vaga! Onde encontrar a coragem, a esperança para isso? Trate, pois, cérebro limitado, de compreender o que é um dia que nunca termina. É um dia, um ano, um século? Que sei eu disso? As horas não o dividem, as estações não o variam; eterno e lento como a água que ressuma do rochedo, esse dia execrado, esse dia maldito, pesa sobre mim como um relicário de chumbo... Eu sofro!... Não vejo nada ao meu redor senão sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro! Eu o sei, todavia, acima dessa miséria reina Deus, o pai, o senhor, aquele para o qual tudo se dirige. Quero nele pensar; quero lhe implorar. Eu me debato e me arrasto como um estropiado que rasteja ao longo do caminho. Não sei qual poder me atrai para ti; talvez tu sejas a salvação. Eu te deixo um pouco calma, um pouco reanimada, como um velho tiritante que um raio de sol reanima; minha alma insensível haure uma nova vida em de ti se aproximando. Claire IIA minha infelicidade aumenta a cada dia; aumenta à medida que o conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria! Quanto eu vos maldigo, horas culpáveis, horas de egoísmo e de esquecimento, onde desconhecendo toda caridade, todo devotamento, e eu não pensava senão no meu bem-estar! Sede malditos, arranjos humanos! Vãs preocupações de interesses materiais! Sede malditos, vós me cegastes e perdestes! Estou roída pelo incessante remorso do tempo escoado. Que te direi, a ti que me escutas? Vela sem cessar sobre ti; ama os outros mais do que a ti mesmo; não te demores nos caminhos do bem-estar; não engordes teu corpo às expensas de tua alma; vigia, como dizia o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeças por esses conselhos, o meu Espírito os concebe, mas o meu coração jamais os escutou. Como um cão chicoteado, o medo me faz rastejar, mas não conheço ainda o livre amor! Sua divina aurora tarda muito a se levantar! Ora pela minha alma ressequida e tão miserável! Claire IIINota. Os dois primeiros ditados foram obtidos pelo médium em sua casa; este foi dado espontaneamente na Sociedade, o que explica o sentido da primeira frase. Venho te procurar até aqui, uma vez que me esqueces. Crês, pois, que preces isoladas, meu nome pronunciado, bastarão para o apaziguamento de minha pena. Não, cem vezes não. Eu urro de dor; erro sem repouso, sem asilo, sem esperança, sentindo o eterno aguilhão do castigo se cravar na minha alma revoltada. Rio quando eu ouço os vossos lamentos, quando vos vejo abatidos. Que são as vossas pálidas misérias! Que são as vossas lágrimas! Que são os vossos tormentos que o sono suspende! Será que durmo, eu? Eu quero, ouves? Eu quero que, deixando as tuas dissertações filosóficas, te ocupes de mim; que delas tu faça os outros se ocuparem. Eu não encontro expressão para pintar a angústia desse tempo que escoa, sem que as horas me marquem os períodos. Apenas se vejo um fraco raio de esperança, e essa esperança, foi tu que ma deste; não me abandones, pois. Claire IVNota. A comunicação seguinte não é do mesmo Espírito; é de um Espírito superior, nosso guia espiritual em resposta à pergunta que lhe fizemos de consentir em nos dar a sua opinião sobre as que precedem. Esse quadro não é muito verdadeiro, porque não está de nenhum modo carregado. Perguntar-se-á, talvez, o que fez essa mulher para sertão miserável! Cometeu algum crime horrível? Roubou, assassinou? Não; ela nada fez que haja merecido a justiça dos homens. Ela se distraía, ao contrário, com aquilo que chamais a felicidade terrestre: beleza, fortuna, prazeres, adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, e se dizia vendo-a: Que mulher feliz! E se invejava a sua sorte. O que ela fez? Foi egoísta; tinha tudo, exceto um bom coração. Se ela não violou a lei dos homens, violou a lei de Deus, porque desconheceu a caridade, a primeira das virtudes. Não amou senão a si mesma: agora, não é amada por ninguém; ela nada deu: não se lhe dá nada; está isolada, desamparada, abandonada, perdida no espaço, onde ninguém pensa nela, ninguém se ocupa dela, o que faz o seu suplício. Como não procurou senão os gozos mundanos, e que hoje esses gozos não existem mais, fez-se o vazio ao seu redor; ela não vê senão o nada, e o nada lhe parece a eternidade. Não sofre torturas físicas; os diabos não vêm atormentá-la, mas isso não é necessário; ela se atormenta a si mesma, e sofre muito mais, porque esses diabos ainda seriam seres que pensariam nela. O egoísmo fez a sua alegria sobre a Terra: ele a perseguiu; é agora o verme que lhe rói o coração; é o seu verdadeiro demônio. Ah! Se os homens soubessem o que custa ser egoísta! Deus, todavia, vo-lo ensina todos os dias, porque se envia tantos Espíritos egoístas sobre a Terra, é a fim de que, desde esta vida, eles se punam uns pelos outros, e compreendam melhor, pelo contraste, que a caridade é o único contra-veneno desta lepra da Humanidade. Alfred de Musset(Médium, senhorita Eugénie.) Na sessão da Sociedade de 23 de novembro, um Espírito se comunica espontaneamente, escrevendo o que se segue: Como eu desejo, antes de tudo, vos ser agradável, vou pedir-vos o que quereis que eu trate; se tendes um assunto, fazei as perguntas. Enfim, senhores, sou sempre o vosso devotado Alfred de Musset. - Sendo a vossa visita imprevista, não temos assunto preparado; rogamos querer tratá-lo à vossa escolha; qualquer que seja, por isso vos seremos muito reconhecidos. -Tendes razão; sim, porque o meu Espírito, em particular, e todos em geral, nós conhecemos melhor as vossas necessidades, e podemos aplicar melhor as comunicações do que vós mesmos não o faríeis. De que vou tratar? Estou bastante embaraçado em meio de tantos assuntos interessantes. Comecemos por falar daqueles que desejam ardentemente ser espíritas, mas que parecem recuar diante do que crêem uma apostasia; falemos, pois, por aqueles que recuariam diante da idéia de se encontrarem em contradição com o catolicismo. Escutai bem, eu disse catolicismo, e não cristianismo. Tendes medo de renegar a fé dos vossos pais? Erro! Os vossos pais, os primeiros, aqueles que fundaram essa religião sublime em sua origem, mais do que vós eram espíritas; eles pregavam a mesma doutrina que se vos ensina hoje; e que diz: Espiritismo, como vossa religião, diz: Caridade, bondade, esquecimento e perdão das injúrias; como o catolicismo, vos ensina a abnegação de si mesmo. Podeis, pois, consciência escrupulosa, alia-tos juntos, e vir, sem escrúpulo sentar-vos a esta mesa e falar aos seres que lamentais. Sede, como os vossos pais, caridosos, bons, complacentes, e no fim da rota tereis todos o mesmo lugar; no fim do caminho, a balança, que pesará as vossas ações, terá os mesmos pesos, e a obra o mesmo valor. Vinde sem medo, isso vos peço; vinde, mulheres graciosas, com o coração cheio de ilusões; vinde aqui, elas serão substituídas pelas realidades mais belas e mais radiosas; vinde, esposa de coração duro, que sofreis pela vossa secura, aqui está a água que amolece a rocha e mitiga a sede; vinde, mulheres amantes, que aspirais toda a vossa vida à felicidade, que medis a profundidade de vosso coração e desesperais de preenchê-la; vinde, mulheres de inteligência ávida: aqui a ciência corre clara e pura; vinde haurir nesta fonte que rejuvenesce. E vós, velhos que vos curvais, vinde e rireis à frente desta juventude que vos desdenha, porque, para vós, se abrem as portas do santuário, para vós o renascimento vai começar a trazer de novo a felicidade dos vossos primeiros anos; vinde, e nós vos faremos ver irmãos que vos estendem os braços e vos esperam; vinde, pois, todos, porque, para todos, há consolações. Vedes que me presto voluntariamente; usai de mim, vós me dareis prazer. Aproveitando da boa vontade do Espírito de Alfred de Musset, foram-lhe dirigidas as perguntas seguintes: 1. Qual será a influência da poesia no Espiritismo? - R. A poesia é o bálsamo que se aplica sobre as feridas; a poesia foi dada ao homem como um maná celeste, e todos os poetas são médiuns que Deus enviou sobre a Terra para regenerar um pouco o seu povo, e não deixá-los embrutecer inteiramente; porque, o que há de mais belo! O que fala mais à alma do que a poesia! 2. A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram alternativamente influenciadas pelas idéias pagas e cristãs; quereis nos dizer se, depois da arte paga e da arte cristã, haverá um dia a arte espírita? - R. Fazeis uma pergunta que se responde por si mesma: o verme é verme, torna-se verme de seda, depois borboleta. O que há de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Pois bem! A arte paga, é o verme; a arte cristã é a crisálida; a arte espírita será a borboleta. (Ver, a este respeito o artigo acima, pág. 366, sobre a arte paga, a arte cristã e a arte espírita.) 3. Qual é a influência da mulher no decimo-nono século. Nota. Esta pergunta foi colocada por um jovem estranho à sociedade. R. Ah! É o progresso; e é um jovem que propõe esta questão, é belo, sou muito amador, para não me dignar responder-lhe, e estou seguro de que todos aqui o desejam também. A influência da mulher no décimo-nono século! Credes que ela haja esperado essa época para vos ter todos no esquecimento, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes depreciá-la, foi porque tivestes medo; se tentastes abafar a sua inteligência, foi porque temestes a sua influência; não há senão seu coração no qual não pudestes colocar obstáculos, e como o coração é o presente que Deus lhe fez em particular, ele permaneceu senhor e soberano. Mas eis também que a mulher se fez borboleta: ela quer sair de sua crisálida; ela quer reconquistar os seus direitos, todos divinos; como aquela, se lança na atmosfera e dir-se-ia que respira o ar do seu justo valor. Não credes que com isso quero fazer eruditas, letradas, mulheres de poemas; não, mas eu quero, se quer aqui, no mundo em que habito, que aquela que deve elevar a Humanidade seja digna de seu papel; se quer que aquela que deve formar os homens, comece a conhecer a si mesma, e, para infiltrar-lhe, desde a juventude, o amor do belo, do grande, do justo, é necessário que ela possua esse amor em um grau superior; é necessário que ela o compreenda; se o agente educador por excelência é reduzido ao estado de nulidade, a sociedade cambaleia; é o que deveis compreender no décimo-nono século. Intuição da vida futura(Médium, senhorita Eugénie.) Nota. A médium escreveu num antigo caderno, que serviu a um outro médium, e no qual se encontrava uma comunicação escrita, há muito tempo, e assinada por Delphine de Girardin. Esta circunstância explica o começo da comunicação seguinte: Encontro justamente o meu nome traçado, e me servirá de assinatura antes de haver começado. Quero aqui vos falar, a todos em geral, e provar que sois espiritualistas e por isso não tereis senão que dirigir-me ao vosso julgamento. Que ides, no primeiro dia de novembro, fazer no cemitério, uma vez que não conserva senão o despojo dos seres que lamentais? Por que ides perder o vosso tempo para lhes levar, um buquê odorífero, um pensamento de amizade e uma doce lembrança? Por que ides lembrar a sua memória se não vivem mais? Por que derramar prantos e lhes pedir para secá-los ou vos reunir a eles? Respondei, vós todos que dizeis, - porque aqueles que não o dizem bem alto o pensam bem baixo, - que dizeis: a matéria é a única coisa que existe em nós; depois de nós, nada. Dizei, não estais em desacordo com vós mesmos? Mas regozijai-vos, tendes mais fé do que pensais. Deus, que vos criou imperfeitos, quis vos dar confiança apesar de vós, e sem querer disso vos dar conta, sem disso ter consciência, falais a esses seres queridos, pedi-lhes para sentir as flores que lhes ofereceis, pedi-lhes amizade e proteção. Mãe! Tu chamas tua filha um anjo e lhe pede as suas preces; filha! tu chamas a proteção de tua mãe e roga-lhe te dar os seus conselhos. Muitos entre vós dizem: Eu sinto em meu coração a verdade do que dizeis, mas está em desacordo com o que os meus pais me ensinaram, e Espíritos escrupulosos que sois! Encerrai-vos em vossa ignorância. Atuai, pois, sem medo, porque a fé espírita está em relação com todas as religiões, uma vez que ela diz o que todas repetem: Amor, caridade, humildade. Vedes que, se isso não se deve senão à vossa hesitação, deveis crer. Delphine de Girardin. Nota. A contradição, da qual fala o Espírito, em começando, se vê a cada instante, naqueles mesmos que negam fortemente a vida futura. Se tudo perece com a vida corpórea, de que serviria, com efeito, a comemoração dos seres que se lamentam se eles não nos ouvem mais? Falaram-nos de um senhor imbuído, ao último ponto, das idéias materialistas mais absolutas; recentemente, vem de perder um filho único, e o desgosto que com isso sentiu foi tal que quis suicidar-se para ir reencontrá-lo; ora, para ir reencontrar o quê? Os ossos que não são mais dele, porque esses ossos não pensam. A reencarnação(Médium, senhorita Eugénie.) Nota. Na sessão da Sociedade, onde foi obtido o ditado precedente, o Espírito da senhora de Girardin sendo rogado para consentir dar um sobre a reencarnação, respondeu: "Oh! Eu não peço melhor; esse médium está habituado a me ver fazer aquilo que não lhe apraz sempre, e tendes razão." Esta última frase é uma alusão a certas idéias particulares do médium com respeito à reencarnação. "A reencarnação é uma coisa lógica, e cai sob o sentido; assim, pois, não se trata senão de refletir, senão de querer examinar bem ao redor. Não tendes senão que olhar dentro de vós mesmos para encontrar as provas da reencarnação. Vedes nessa mesa um bom pai de família, há várias crianças belas, uns são de uma inteligência notável, os outros num estado quase abjeto; de onde vem, pois, esta diferença? O mesmo pai, a mesma mãe, a mesma educação, e, entretanto, tantos contrastes! "Olhai em vossa lembrança; nela não encontrais a intuição de fatos dos quais não tendes nenhum conhecimento, e que entretanto todos vós lembrais completamente como tendo existido? Não vos encontrais tocados, vendo um ser pela primeira vez, que vos parece ser conhecido? Sim, não é? Pois bem! Isso vos prova uma vida anterior, à qual pertencestes; isso prova que a criança inteligente deveu percorrer várias existências, e por aí se depurou, e que outro pode estar em sua primeira; que a pessoa que reencontrais vos pode ter sido íntima, e que o fato do qual não vos lembrais vos foi pessoal numa outra vida. Depois, enfim, para entrar no reino de Deus, é necessário que sejais perfeitos. Vejamos! Credes que vos resta tão pouco a fazer para crer que, depois da vossa morte, três ou quatro meses de esferas vos bastarão (1 - (1) Alusão à opinião que algumas pessoas professam com respeito à vida futura )? Não; eu não creio em tanta pretensão; para adquirir, é preciso trabalhar, e a fortuna moral não se lega como a fortuna material; para vos depurar, é necessário passar em vários corpos que carregam com eles, em cada despojo, uma parte da vossa impureza. "Se refletísseis, não poderíeis vos impedir de vos render à evidência. Delphine de Girardin O dia dos mortos(Médium, senhorita Huet.) Nota. Na sessão da Sociedade de 2 de novembro, Charles Nodier, rogado a consentir para continuar o trabalho que começou, respondeu: "Permiti-me, esta noite, meus muito caros amigos, vos falar sobre um outro assunto; continuarei o meu trabalho começado numa próxima vez. "Hoje é uma época que nos é muito pessoalmente consagrada, pelo que não lembraremos a vossa atenção sobre a morte e sobre as preces que reclamam a maioria daqueles que vos precederam. Esta semana é uma época de confraternização entre o céu e a Terra, entre os vivos e os mortos; deveis vos ocupar de nós mais particularmente, e de vós também; porque meditando este pensamento de que logo, como para nós, os vivos pedirão pela vossa alma, deveis vos tornar melhores. Segundo a maneira pela qual vivestes neste mundo, sereis recebidos diante de Deus. O que é a vida, depois de tudo? Uma curtíssima emigração do Espírito sobre a Terra; tempo, entretanto, em que pode amontoar um tesouro de graças ou se preparar para cruéis tormentos. Pensai nisso, pensai no céu, e a vida, qualquer que a tendes, vos parecerá bem breve. Charles Nodier As perguntas seguintes foram dirigidas ao Espírito a respeito de sua comunicação. 1. Hoje os Espíritos são mais numerosos do que habitualmente nos cemitérios? - R. Neste tempo estamos mais de bom grado junto de nossos despejos terrestres, porque os vossos pensamentos, as vossas preces ali estão conosco. 2. Os Espíritos que, nestes dias, vêm para suas tumbas junto das quais ninguém roga, sofrem por se verem abandonados, ao passo que outros têm seus parentes e seus amigos que vêm lhes dar um sinal de lembrança? - R. Não há pessoas piedosas que oram por todos os mortos em geral? Pois bem! Essas preces retornam ao Espírito esquecido, são para eles o maná celeste que cai para o preguiçoso como para o homem ativo; a prece é para o conhecido como para o desconhecido: Deus a reparte igualmente, e os bons Espíritos que dela não têm mais necessidade a revertem para aqueles que ela pode ser necessária. 3. Sabemos que a fórmula das preces é indiferente, todavia, muitas pessoas têm necessidade de uma fórmula para fixar as suas idéias; por isso, vos seríamos reconhecidos em consentir em nos ditar uma sobre esse assunto; todos nós nos associaremos a ela pelo pensamento, para aplicá-la aos Espíritos que podem dela ter necessidade. - R. Eu o desejo muito. "Deus, criador do universo, dignai-vos ter piedade de vossas criaturas; considerai as suas fraquezas; abreviai as suas provas terrestres, se estão acima de suas forças; compadecei-vos das penas daqueles que deixaram a Terra, e inspirai-lhes o desejo de progredir para o bem." 4. Sem dúvida, há aqui vários Espíritos aos quais podemos ser úteis; vamos pedir-lhes para se darem a conhecer. - R. Que pergunta fazeis! Sereis assaltados. 5. Não estamos, de nenhum modo assustados com isso; se não podemos ouvi-los todos, o que nos dirão por um, os outros nisso terão a sua parte.-R. Pois bem! Fazei o que o vosso coração vos ditar. Sendo feito um chamado sem designação a um dos Espíritos presentes que quisesse se comunicar para reclamar a nossa assistência, ou de um personagem muito conhecido, morto há dois anos, se manifesta e mostra sentimentos bem diferentes daqueles que tinha quando vivo e que se estava longe de supor-lhe. Alegoria de Lázaro(Médium, Sr. Alfred Didier.) Cristo amava um homem de nome Lázaro, e quando soube de sua morte, a sua dor foi grande, e se fez conduzir para junto de seu túmulo. A irmã de Lázaro suplicava ao Senhor e lhe dizia: "É possível que possais restituir a vida ao meu irmão? Ó, vós que o amais tanto, restituí-lhe a vida!" Mundo do décimo-nono século, morreste também; a fé, que é a vida dos povos, se extingue dia a dia; em vão alguns crentes quiseram te despertar em tua agonia: é muito tarde; Lázaro está morto, só Deus pode salvá-lo. O Cristo se fez, pois, conduzir ao túmulo; levantou-se a pedra do sepulcro; o cadáver cercado de faixinhas se apresentou em todo o horror da morte. Cristo lançou um olhar para o céu, tomou a mão da irmã, e levantando a sua outra mão para o céu, exclamou: "Lázaro, levanta-te!" E apesar das faixinhas, apesar de sua mortalha, Lázaro despertou e se levantou. O mundo! Assemelhas-te a Lázaro, nada pode te restituir a vida; o teu materialismo, as tuas torpezas, o teu ceticismo tem tantas faixinhas que cercam o teu cadáver, e te sentes mal, porque estás morto há muito tempo. Qual é aquele que te exclamará como a Lázaro: em nome de Deus; levantai-vos! E o Cristo que obedece ao chamado do Espírito-Santo. Século, século, a voz de Deus se faz ouvir! Estás mais apodrecido do que Lázaro? Lamennais O duende familiar(Médium, senhora Costel.) Eu nunca me comuniquei convosco, e estou muito feliz em aumentar a vossa plêiade literária. Sabeis, vós que me lestes com tanto gosto, que divinização eu tinha do que se chama de mundo fantástico. Freqüentemente só, nas longas noites de inverno, recolhido ao canto de minha lareira solitária, eu escutava gemerem as notas lamentosas do vento. Ao passo que o meu olhar distraído seguia vagamente os desenhos inflamados do fogo, certamente o duende doméstico me entrelinha então, e eu não inventava mais Trilby; eu repetia o que ele murmurara em meu ouvido atento. A encantadora coisa de sentir viver ao redor de si, esses hóspedes invisíveis! Com eles, nada de mistérios: eles vos amam, embora malgrado vos conhecem melhor do que não o fazeis vós mesmos. Em minha vida literária, em minha vida de homem, devo a esses invisíveis amigos e os meus melhores sucessos e as minhas mais caras consolações. De minha parte, agora, de murmurar aos ouvidos amigos as coisas que o coração adivinha e não repete. É vos dizer, caro médium, que, freqüentemente, terei o doce privilégio de conversar convosco. Charles Nodier ALLAN KARDEC. |
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