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Relações afetuosas dos EspíritosRevista Espírita, novembro de 1860 Comentários sobre o ditado espontâneo, publicado na Revista do mês de outubro de 1860, sob o título de: o Despertar do Espírito. Geralmente, se tem admirado as belas comunicações do Espírito que assina Georges; mas, em razão mesmo da superioridade da qual este Espírito deu provas, várias pessoas viram com surpresa o que ele disse na sua comunicação do Despertar do Espírito, a propósito das relações de além-túmulo. Ali se lê o que se segue: "A gente despoja-se de todos os preconceitos terrestres, a verdade aparece com toda a sua luz, nada disfarça as faltas, nada esconde as virtudes; vê-se sua alma tão claramente como num espelho, procura-se entre os Espíritos aqueles que se conheceu, porque o Espírito se assusta com o seu isolamento, mas passam sem se deter; não há comunicações amigáveis entre os Espíritos errantes; aqueles mesmos que se amaram não trocam sinais de reconhecimento; essas formas diáfanas deslizam e não se fixam: as comunicações afetuosas são reservadas aos Espíritos superiores." O pensamento de se encontrar depois da morte, e de se comunicar com aqueles que se amou, é uma das mais doces consolações do Espiritismo, e a idéia de que as almas não podem ter, entre elas, relações amigáveis seria dolorosa se devesse ser absoluta, também não estamos surpresos com o sentimento penoso que ela produziu. Se Georges fora um desses Espíritos vulgares e sistemáticos, que emitem suas próprias idéias sem se inquietarem com a sua justeza ou a sua falsidade, não se teria dado nenhuma importância; em razão de sua sabedoria e sua profundeza habituais, poder-se-ia crer que, no fundo dessa teoria, haveria alguma coisa de verdadeira, mas que o pensamento não fora completamente expresso; é, com efeito, o que resulta das explicações que pedimos. Encontramos aí, pois, uma prova a mais de que não é preciso nada aceitar sem tê-lo submetido ao controle da razão, e aqui a razão e os fatos nos dizem que essa teoria não poderia ser absoluta. Se o isolamento fosse uma propriedade inerente à erraticidade, esse estado seria um verdadeiro suplício, tanto mais penoso quanto mais possa se prolongar durante uma longa seqüência de séculos. Nós sabemos, por experiência, que a privação da visão daqueles que se amou é uma punição para certos Espíritos; mas sabemos também que muitos ficam felizes por se reencontrarem; que à saída dessa vida, nossos amigos do mundo espírita vêm nos receber e nos ajudam a nos desembaraçarmos das faixas materiais, e que nada é mais penoso do que não encontrar nenhuma alma benevolente nesse momento solene. Essa consoladora doutrina seria uma quimera! Não, isto não se pode porque ela não é somente o resultado de um ensino, são as próprias almas, felizes ou sofredoras, que vieram descrever sua situação. Sabemos queos Espíritos se reúnem e concordam entre eles para agirem de comum acordo com mais força em certas ocasiões, tanto para o mal como para o bem; que os Espíritos a quem faltem conhecimentos necessários, para responderem às perguntas que se lhes dirige, podem ser assistidos por Espíritos mais esclarecidos; que estes têm por missão ajudarem, com os seus conselhos, ao adiantamento dos Espíritos atrasados, que os Espíritos inferiores agem sob o impulso de outros Espíritos dos quais são os instrumentos; que eles recebem ordens, proibições ou permissões, todas circunstâncias que não poderiam ocorrer se os Espíritos estivessem entregues a si mesmos. O simples bom senso nos diz, pois, que a situação da qual foi falada é relativa e não absoluta. Que ela pode existir para alguns em dadas circunstâncias, mas que não poderia ser geral, porque de outro modo seria o maior obstáculo ao progresso do Espírito, e por isso mesmo não estaria conforme nem com a justiça e nem com a bondade de Deus. Evidentemente, o Espírito de Georges não considerou senão uma fase da erraticidade, onde, por melhor dizer, restringiu a acepção da palavra errante a uma certa categoria de Espíritos em lugar de aplicá-la, como o fazemos, a todos os Espíritos não encarnados indistintamente. Pode ocorrer, pois, que dois seres que se amaram não troquem os sinais de reconhecimento; que não possam mesmo nem se verem e nem se falarem, se é uma punição para um dos dois. Por outro lado, como os Espíritos se reúnem segundo a ordem hierárquica, dois seres que se amaram sobre a Terra podem pertencer a ordens muito diferentes e, por isso mesmo, se encontrarem separados até que o menos avançado tenha chegado ao grau do outro; essa privação pode ser, assim, uma conseqüência da expiação e das provas terrestres: cabe a nós fazer de modo a não merecê-la. A felicidade dos Espíritos é relativa à sua elevação; a felicidade não é completa senão para os Espíritos depurados, cuja felicidade consiste, principalmente, no amor que os une; isso se concebe e é de inteira justiça, porque a afeição verdadeira não pode existir senão entre seres que se despojaram de todo o egoísmo e de toda influência material, porque, entre aqueles somente, ela é pura sem dissimulação, e não pode ser perturbada por nada; de onde se segue que as suas comunicações devem ser, por isso mesmo, mais afetuosas, mais expansivas, do que entre os Espíritos que ainda estão sob o império das paixões terrestres; é necessário disso concluir que os Espíritos errantes não estão forçosamente privados, mas podem estar privados dessas espécies de comunicações, se tal é a punição que lhes foi infligida. Como disse Georges numa outra passagem: "Essa privação momentânea não lhes dá senão mais ardor para chegar a um momento onde as provas cumpridas lhes devolverão os objetos de sua afeição." Portanto, essa privação não é o estado normal dos Espíritos errantes, mas uma expiação para aqueles que a mereceram, uma das mil e uma variedades que nos esperam na outra vida, quando desmerecemos nesta. |
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