Os Fantasmas
Revista Espírita, julho de 1860
A Academia assim define esta palavra: "Diz-se dos Espírito que se supõe
retornarem do outro mundo." Ela não diz que retomam; não há senão os
Espíritas que possam ser bastante loucos para ousar afirmar semelhantes coisas.
Qualquer que ela seja, pode-se dizer que a crença nos fantasmas é universal; ela
está evidentemente fundada sobre a intuição da existência dos Espíritos, e a
possibilidade de comunicar-se com eles; a esse título, todo Espírito que
manifesta a sua presença, seja pela escrita de um médium, seja simplesmente
batendo sobre uma mesa, seria um fantasma; reserva-se, porém, geralmente, esse
nome, quase sepulcral, para aqueles que se tornam visíveis e que se o supõe,
como disse com razão a Academia, virem em circunstâncias mais dramáticas.
São contos de velhas? O fato em si mesmo, não; os acessórios? sim. Sabe-se que
os Espíritos podem se manifestar à visão, mesmo sob uma forma tangível, eis o
que é real; mas o que é fantástico são os acessórios, do qual o medo, que tudo
exagera, acompanha ordinariamente esse fenômeno muito simples em si mesmo, que
se explica por uma lei toda natural, e não tem, por conseguinte, nada de
maravilhoso, nem de diabólico. Por que, pois, se tem medo dos fantasmas?
Precisamente por causa desses mesmos acessórios que a imaginação se compraz em
tornar assustadores, porque ela se assustou e que ela acreditou ver o que não
viu. Em geral, são representados sob um aspecto lúgubre, vindo de preferência à
noite, e sobretudo nas noites mais sombrias, em horas fatais, em lugares
sinistros, cobertos de lençóis ou bizarramente vestidos. O Espiritismo nos
ensina, ao contrário, que os Espíritos podem se mostrarem todos os lugares, a
toda hora, de dia tão bem quanto à noite; que o fazem, em geral, sob a aparência
que tinham quando vivos, e que só a imaginação cria fantasmas; que aqueles que o
fazem, longe de ser temíveis, são, o mais freqüentemente, parentes ou amigos que
vêm a nós por afeição, ou Espíritos infelizes que podem ser assistidos; algumas
vezes, são farsantes do mundo Espírita que se divertem às nossas custas e se
riem do medo que causam; concebe-se que, com estes, o melhor meio é rir deles e
provar-lhes que não se tem medo; de resto, limitam-se, quase sempre, a fazerem
barulho e raramente se tornam visíveis. Infeliz daquele que toma a coisa a
sério, porque então redobram as suas travessuras; tanto valeria exorcizar um
moleque de Paris. Mas supondo-se mesmo que seja um mau Espírito, que mal poderia
ele fazer, e não se teria cem vezes mais a temer de um bandido vivo que
de um bandido morto e tornado Espírito! Aliás, sabemos que estamos
constantemente cercados de Espíritos, que não diferem daqueles que se chamam
fantasmas senão porque não são vistos.
Os adversários do Espiritismo não faltarão de acusá-lo acreditar numa crença
supersticiosa; mas o fato das manifestações visíveis, estando averiguado,
explicado pela teoria, e confirmado por numerosos testemunhos, não se pode fazer
que ele não seja, e todas as negações não impedirão de se produzirem, porque há
poucas pessoas que, consultando as suas lembranças, não se lembre de algum fato
dessa natureza que não podem revogar em dúvida. Vale, pois, bem mais que se
esteja esclarecido sobre o que há de verdadeiro ou de falso, de possível ou de
impossível nos relatos nesse gênero; é em se explicando uma coisa,
raciocinando-a, que se premune contra um medo pueril. Conhecemos bom número de
pessoas que tinham um grande medo dos fantasmas; hoje que, graças ao
Espiritismo, elas sabem o que eles são, seu grande desejo seria vê-los.
Conhecemos outros que tiveram visões com as quais muito se amedrontaram; agora
que compreendem, com isso não são de nenhum modo tocados. Conhecem-se os perigos
do mal do medo para os cérebros fracos; ora, um dos resultados do conhecimento
do Espiritismo esclarecido é precisamente o de curar esse mal, e aí não está um
dos seus menores benefícios.
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