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Conversas familiares de além-túmulo - Senhora Duret

Revista Espírita, junho de 1860

Médium escrevente, morta em 1flde maio de 1860, em Argélia, evocada primeiro na casa do Sr. Allan Kardec, dia 21, depois na Sociedade, dia 25 de maio.

1. Evocação. - Eis-me.

2. Conhecemo-nos de nome, se não de fato; embora nunca me vistes, reconheceis-me? - R. Oh! muito bem.

3. Depois de vossa morte, já viestes me visitar? - R. Não ainda, mas sabia bem que me chamaríeis.

4. Como médium, e perfeitamente iniciada no Espiritismo, pensei que poderíeis, melhor que outro, dar-nos explicações instrutivas sobre diferentes pontos da ciência. - R. Responderei o melhor que puder.

5. Esta primeira evocação não tem por objeto senão renovar, de alguma sorte, o conhecimento, e colocar-nos em relação; quanto às perguntas, como são de interesse geral, prefiro vo-las dirigir na Sociedade. Pergunto, pois, seconsentis em vir?-Sim, de muito bom grado; responderei e pedirei a Deus que me esclareça.

6. Há aqui cinco médiuns; preferis um deles para vos servir de intérprete? - R. Isso me é indiferente, desde que seja um bom médium.

7. Como médium, fostes alguma vez enganada pelos Espíritos em vossas comunicações? - R. Oh! Muito freqüentemente. Há poucos médiuns que não o sejam, mais ou menos.

Nota. No dia seguinte, a senhora Durei se manifestou, espontaneamente, e testemunhou o pesar por não se lhe dirigir, na véspera, um maior número de perguntas.

8. Se não o fiz, como disse, foi que as reservei para a Sociedade; queria simplesmente assegurar-me de que podia contar convosco. - R. O que é feito em vossa casa, é igualmente dado para a instrução da Sociedade, e é, com freqüência, útil aproveitar os instantes em que o Espírito quer se comunicar, não lhe sendo sempre as circunstâncias igualmente favoráveis.

9. Quais são as circunstâncias que lhe podem ser favoráveis? -_R. Há muitas que conheceis; mas é necessário que saibais que isso não depende sempre dele. Algumas vezes, tem necessidade de ser assistido por outros Espíritos, que nem sempre estão ali a propósito.

10. Uma vez que viestes, espontaneamente, devo crer que estais num desses momentos propícios, e disso aproveitarei se consentirdes. Dissestes ontem que, freqüentemente, fostes enganada como médium; vedes agora os Espíritos que vos enganavam? -R. Sim, vejo-os muito bem. Gostariam muito ainda de me enganar, mas no presente, vejo-os claro; não sou mais sua vítima; também, eu os repilo.

11. Dissestes, também, que há muitos médiuns que foram, mais ou menos, enganados; de que isso depende? - R. Muito do médium, e também daquele que interroga.

12. Peco-vos explicar-vos mais claramente? - R. Quero dizer que se pode sempre, quando se o quer, preservar-se dos maus Espíritos, e a primeira condição, para isso, é não atraí-los pela sua fraqueza ou por seus defeitos. Quantas coisas terei a vos dizer lá em cima! Ah! Se os médiuns soubessem todo o mal que se fazem expondo-se aos Espíritos malévolos!

13. É no mundo dos Espíritos que eles se fazem mal? - R. Sim, e no mundo dos vivos também.

14. Que mal isso pode fazer-lhes no mundo dos vivos? - R. Vários; primeiro, tornam-se vítimas dos maus Espíritos, que os enganam e impelem ao mal, excitando todos os seus defeitos, que encontram em germe nele, principalmente o orgulho e o ciúme. Em seguida, Deus pune-os, freqüentemente, pelas penas da vida.

Nota. Temos mais de um exemplo de médiuns dotados das mais felizes disposições, e que a infelicidade perseguiu e oprimiu, depois de se deixarem dominar pelos maus Espíritos.

15. Mas, então, não seria melhor não ser médium, uma vez que essa faculdade pode arrastar a tão grandes inconvenientes? -R. Credes, pois, que os maus Espíritos não venham atacar senão os médiuns? A mediunidade, ao contrário, é um meio precioso para reconhecê-los e deles se preservar; é o remédio que Deus, em sua bondade, dá ao lado do mal; é a advertência de um bom pai que ama seus filhos e quer preservá-los do perigo. Infelizmente, aqueles que gozam desse dom não sabem ou não querem aproveitá-lo; são como o imprudente que se fere com a arma que deve servir para defendê-lo.

16. Sois bem vós, senhora Duret, que dais estas respostas? -R. Sou eu quem as dou. e o certifico em nome de Deus; mas creio que se estivesse abandonada a mim mesma, delas seria incapaz. Os pensamentos me vêm de mais alto.

17. Vedes o Espírito que vos inspira? -R. Não; há aqui uma multidão de Espíritos diante dos quais me inclino, e cujos pensamentos parecem irradiar em mim.

18. Assim, um Espírito pode receber as inspirações de outros Espíritos tão bem quanto aquele que está encarnado, e servir-lhe de intermediário? -R. Guardai-vos de duvidar disso; freqüentemente, ele crê responder por si mesmo, e não é senão um eco.

19. Que os pensamentos sejam vossos pessoalmente, ou que vos sejam sugeridos, pouco nos importa, do momento que são bons, e agradecemos os bons Espíritos que vo-los sugerem; mas, então, perguntarei por que esses mesmos Espíritos não respondem diretamente? - R. Fá-lo-iam se vós os interrogásseis; foi a mim que evocastes; eles querem responder, e então servem-se de mim para a minha própria instrução.

20. O Espírito que obsidia um médium quando vivo, obsidia-o ainda depois da sua morte? - R. A morte não livra o homem da obsessão dos maus Espíritos; é a figura do demônio atormentando as almas em pena. Sim, esses Espíritos perseguem-no depois da morte, e causam-lhes sofrimentos horríveis, porque o Espírito atormentado sente-se sob uma opressão da qual não pode se livrar. Aquele, ao contrário, que se livrou da obsessão quando vivo, é forte, e os maus Espíritos olham-no com temor e respeito; encontraram seu senhor.

21. Há muitos médiuns verdadeiramente bons, em toda a acepção da palavra? - R. Não são os médicos que faltam, mas os bons médicos são raros; ocorre o mesmo com os médiuns.

22. Por que sinal se pode reconhecer que as comunicações de um médium merecem confiança? - R. As comunicações dos bons Espíritos têm um caráter com o qual não é possível enganar-se, quando se quer dar-se ao trabalho de estudá-las. Quanto ao médium, o melhor seria aquele que nunca foi enganado, porque isso seria a prova de que não atrai senão os bons Espíritos.

23. Mas não há médiuns dotados de excelentes qualidades morais e que são enganados? - R. Sim, os maus Espíritos podem tentar, e não triunfam senão pela fraqueza ou a confiança muito grande do médium, que se deixa enganar; mas isso não dura muito, e os bons Espíritos facilmente levam vantagem quando a vontade aí está.

24. A faculdade mediúnica é independente das qualidades morais do médium? -R. Sim, freqüentemente, é dada em muito alto grau a Pessoas viciosas, a fim de ajudá-las a se corrigirem. É que os doentes não têm mais necessidade de remédios que as pessoas que se portam bem? Os maus Espíritos, algumas vezes, dão-lhe bons conselhos sem o quererem; são impelidos por bons Espíritos; mas disso não se aproveitam, porque, pelo orgulho, não os tomam Para si.

Nota. Isso é perfeitamente exato, e vêem-se, freqüentemente, Espíritos inferiores darem rudes lições, e em termos pouco medidos, assinalarem os defeitos, virarem os defeitos em ridículo, com mais ou menos comedimento, segundo as circunstâncias e, algumas vezes, de modo muito espiritual.

25. Os bons Espíritos podem se comunicar por maus médiuns? - R. Algumas vezes, médiuns imperfeitos podem ter muito belas comunicações, que não podem vir senão de bons Espíritos; quanto mais essas comunicações sejam sábias e sublimes, mais os médiuns são culpados por não aproveitá-las. Oh! Sim; são bem culpados, e carregam cruelmente a pena de sua cegueira.

26. As boas intenções e as qualidades morais daquele que interroga, podem conjurar os maus Espíritos atraídos por um médium imperfeito, e assegurar-lhe boas comunicações? - R. Os bons Espíritos apreciam a intenção, e, quando julgam útil fazê-lo, podem se servir de toda espécie de médium, segundo o objetivo que se propõem; mas, em geral, as comunicações são tanto mais seguras quanto o médium tenha mais qualidades sérias.

27. Nenhum homem podendo ser perfeito. seguir-se-ia que não há médiuns perfeitos? -R. Há os que são tão perfeitos quanto o comporta a humanidade terrestre; são raros, mas os há; estes são os preferidos de Deus e se preparam grandes alegrias no mundo dos Espíritos.

28. Quais são os defeitos que mais dão presa aos maus Espíritos? -R. Eu vos disse: o orgulho, e o ciúme, que é uma conseqüência do orgulho e do egoísmo. Deus ama os humildes e castiga os soberbos.

29. Disso se conclui que o médium que não seja humilde não merece nenhuma confiança? - R. Não, não de maneira absoluta; mas se reconheceis num médium do orgulho, do ciúme e pouca caridade, tendes muito mais chance de serdes enganados.

Nota. O que perde muitos médiuns, é crerem-se os únicos capazes de receber boas comunicações e desprezar a dos outros; se crêem profetas, e não são senão os intérpretes de Espíritos astutos que os enlaçam em suas redes, persuadindo-os de que tudo o que escrevem é sublime, e que não têm necessidade de conselho, a crença de certos médiuns na infalibilidade e na superioridade de suas comunicações é tal que nela tocar é quase uma profanação; duvidar delas é quase injuriá-los; bem mais, é mesmo expor-se a fazer deles inimigos, porque melhor seria dissera um poeta que seus versos são maus Esse sentimento, que tem o orgulho por princípio, é mantido pelos Espíritos que os assistem, e que têm grande cuidado em inspirar-lhes o afastamento de quem possa esclarecê-los; isso só deveria bastar-lhes, se não estivessem fascinados, para fazê-los abrir os olhos. Um princípio que ninguém poderia contestar é que os bons Espíritos não podem aconselhar senão o bem; portanto, tudo o que não for bem, num sentido absoluto, não pode vir de um bom Espírito; consequentemente, todo conselho ditado, ou todo sentimento inspirado, que refletisse o menor pensamento mau, seria, por isso mesmo, de origem suspeita, quaisquer que sejam, de resto, as qualidades ou a redundância do estilo.

Um sinal não menos característico dessa origem, é a adulação, da qual os maus Espíritos não são avaros com relação a certos médiuns. Eles sabem, oportunamente, louvar suas vantagens físicas ou suas qualidades morais, acariciar suas tendências secretas, excitar sua cobiça ou sua cupidez, e, em censurando o orgulho e aconselhando a humildade, inchar sua vaidade e seu amor-próprio. Um dos meios que empregam consiste, sobretudo, em persuadi-los quanto à sua superioridade como médiuns, colocando-os como os apóstolos em missões, ao menos duvidosas, e para as quais a primeira de todas as qualidades seria a humildade, junto à simplicidade e à caridade.

Ofuscados por nomes de seres veneráveis, dos quais se crêem os intérpretes, não percebem a ponta da orelha que os falsos Espíritos deixam passar, apesar deles, porque seria impossível a Espíritos inferiores simular completamente todas as qualidades que não têm. Os médiuns não se livrarão, verdadeiramente, da obsessão da qual são alvo, senão quando compreenderem esta verdade; só então os maus Espíritos, de seu lado, compreenderão que perdem seu tempo com pessoas que não saberiam apanhar em falta.

(Sociedade, 25 de maio de 1860.)

30. Vosso marido possuía, ao que parece, a faculdade de médium vidente; tem realmente esta faculdade? - R. Sim, positivamente.

31. Ele disse ter-vos visto duas vezes depois de vossa morte; isso é verdade? - R. Sim, isso é bem verdade.

32. Os médiuns videntes estão expostos a serem enganados pelos Espíritos impostores como os médiuns escreventes? - R. Freqüentemente, são menos enganados que os médiuns escreventes, mas podem sê-lo igualmente por falsas aparências, quando não estão inspirados em Deus. Sob os Faraós, ao tempo de Moisés, os falsos profetas não faziam milagres que enganavam o povo? Só Moisés não enganava, porque estava inspirado por Deus.

33. Quereis agora nos explicar as vossas sensações, na vossa entrada no mundo dos Espíritos. À parte a perturbação, mais ou menos longa, que segue sempre a morte, houve um instante em que o vosso Espírito perdeu toda a consciência de si mesmo? -R. Sim, como sempre; é impossível de outro modo.

34. Essa perda absoluta de consciência começou antes do instante da morte? - R. Começou na agonia.

35. Persistiu depois da morte? - R. Muito pouco tempo.

36. Quanto tempo pôde durar ao todo? -R. Em torno de quinze a dezoito de vossas horas.

37. Essa duração é variável segundo os indivíduos? - R. Certamente, ela não é a mesma em todos os homens; isso depende muito do gênero de morte.

38. Enquanto se cumpria o fenômeno da morte, tínheis a consciência do que se passava em vosso corpo? - R. Nenhuma. Deus, que é bom para todas as suas criaturas, quer poupar ao Espírito as angústias desse momento; por isso, tira-lhe toda lembrança e toda sensação.

Nota. Este fato, que sempre nos foi confirmado, é análogo ao que se passa na reentrada do Espírito no mundo corpóreo. Sabe-se que, desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar o corpo que deve nascer, está tomado de uma perturbação que vai crescendo à medida que os laços fluídicos, que o unem à matéria, se apertam, até a proximidade do nascimento; nesse momento, perde igualmente toda a consciência de si mesmo, e não começa a recobrar suas idéias senão no momento em que a criança respira; é só então que a união do Espírito e do corpo está completa e definitiva.

39. Como se opera o instante do despertar? Vós vos reconhecestes subitamente ou bem houve um momento de meia consciência, quer dizer, de vago nas idéias? - R. Estive, durante alguns instantes, no vago, depois, pouco a pouco, reconheci-me.

40. Quanto tempo durou esse estado? -R. Não sei ao certo; mas pouco tempo; creio que em torno de duas horas.

41. Durante essa espécie de meio sono, experimentáveis uma sensação agradável ou penosa? - R. Eu não sei; não tinha quase nada a consciência de mim mesma.

42. À medida que as vossas idéias se elucidavam, tínheis a certeza da morte de vosso corpo, ou bem crestes um instante estar ainda neste mundo? -R. Acreditei, efetivamente, durante alguns instantes.

43. Quanto tivestes a certeza de vossa morte, disso não sentistes desgosto? - R. Não, de modo algum; a vida nada tem a lamentar.

44. Quando vos reconhecestes, onde estáveis, e o que primeiro feriu vossa vista? -R. Encontrei-me com Espíritos que me rodeavam, que me ajudavam a sair da perturbação; foi essa mudança que me impressionou.

45. Encontraste-vos perto de vosso marido? -R. Eu o deixo pouco; ele me vê; me evoca; isso substitui meu pobre corpo.

46. Postes imediatamente rever as pessoas que conhecestes: o Sr. Dumas e os outros Espíritas de Sétif? -R. Não imediatamente: pensei que me evocariam. Não fazia muito tempo que os deixara, e aí encontrei os que conhecera e não vira há muitos séculos. Eu era médium e Espírita; todos os Espíritos que evoquei vieram receber-me; isso me impressionou. Se soubésseis como é doce reencontrar nossos amigos neste mundo!

47. O mundo dos Espíritos vos pareceu uma coisa estranha, nova para vós? - R. Oh! Sim.

48. Esta resposta nos admira, porque não foi a primeira vez que vos encontrastes no mundo dos Espíritos. - R. Isso nada tem que deva vos espantar; eu não era tão avançada quanto hoje; depois, a diferença é tão grande entre o mundo corpóreo e o mundo dos Espíritos, que isso surpreende sempre.

49. Vossa explicação poderia ser mais clara; isso não se prenderia a que, cada vez que se retorna ao mundo dos Espíritos, o progresso que se fez dá percepções novas, e permite considerá-lo sob um novo aspecto? - R. É bem isso; eu vos disse que não era tão avançada quanto hoje.

Nota. A comparação seguinte pode fazer compreender o que se passa nesta circunstância. Supomos que um pobre camponês venha a Paris pela primeira vez; ali freqüentará uma sociedade, habitará um quarteirão conforme com a sua situação. Que depois de uma ausência de vários anos, durante a qual se enriqueceu, e adquiriu uma certa educação, ele retorne a Paris, e se encontrará num meio diferente do da primeira vez, e que deverá parecer-lhe novo; compreenderá e apreciará uma multidão de coisas que apenas fixara sua atenção a primeira vez; em uma palavra, terá dificuldade em conhecer sua antiga Paris, e todavia será sempre Paris, mas que lhe aparece sob uma nova luz.

50. Como julgais agora as comunicações que se obtêm em Sétif; são em geral antes boas que más? - R. É como por toda parte; obtém-se boas e más, verdadeiras e falsas. Elas se ocupam, freqüentemente, de coisas que não são bastante sérias, e não são muito hábeis, mas não crêem fazer mal. Farei de sorte a corrigi-los.

51. Nós vos agradecemos por ter consentido vir, e pelas explicações que nos destes. - R. Eu também vos agradeço por pensarem em mim.

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