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O Espiritismo na Inglaterra

Revista Espírita, junho de 1860

O Espiritismo encontrou na Inglaterra, no princípio, uma oposição da qual se admirou com razão. Não foi que ali não encontrasse partidários isolados, como por toda parte, mas seus progressos ali foram infinitamente menos rápidos do que na França. É que, como alguns pretenderam, os Ingleses mais frios, mais positivos, menos entusiasmados que nós, se deixam levar menos pela sua imaginação; que sejam menos levados ao maravilhoso? Se assim fora, dever-se-ia espantar, com muito mais forte razão, que tivesse seu principal foco nos Estados Unidos, onde o positivismo dos interesses materiais reina soberanamente absoluto. Não seria mais racional que saísse da Alemanha, ao passo que a Rússia, sob esse aspecto, parece dever ultrapassar aterra clássica das lendas? A oposição que o Espiritismo encontrou na Inglaterra não se prende, de nenhum modo, ao caráter nacional, mas à influência das idéias religiosas de certas seitas preponderantes, rigorosamente apegadas à letra mais que ao espírito de seus dogmas; elas se emocionaram com uma doutrina que, à primeira vista, pareceu-lhes contrária às suas crenças; mas não poderia sê-lo por muito tempo assim num povo que reflete, é esclarecido, e onde o livre exame não sente nenhum entrave, onde o direito de reunião para discutir é absoluto. Diante da evidência dos fatos, ser-lhe-ia bem necessário render-se; ora, precisamente porque os Ingleses julgaram-nos friamente e sem entusiasmo, foi que os apreciaram e compreenderam toda a sua importância. Quando, depois de uma observação séria, saiu para essa verdade capital que as idéias espíritas têm sua fonte nas idéias cristãs, que longe de se contradizerem elas se corroboram, se confirmam, se explicam umas pelas outras, toda satisfação foi dada ao escrúpulo religioso; a consciência firmada, nada mais se opôs ao progresso das idéias novas, que se propagaram, nesse país, com uma espantosa rapidez. Ora, ali como alhures, é ainda na parte esclarecida da população que se encontram seus mais numerosos e mais zelosos partidários; argumento peremptório ao qual ainda nada se opôs. Ali os médiuns se multiplicam; numerosos centros se estabeleceram, aos quais se associam os membros do alto clero, que proclamam abertamente suas convicções. Os adversários dirão que a febre do maravilhoso triunfou da fleuma inglesa? Qualquer que ela seja, é um fato notório, é que suas classes se esclarecem, todos os dias, a despeito de seus sarcasmos.

O desenvolvimento das idéias espíritas na Inglaterra não poderia deixar de dar nascimento a publicações especiais. Elas têm ali agora um órgão mensal muito interessante, que se publica em Londres, desde o 1S de maio último, sob o título de the Spiritual Magazine, do qual tomamos o relato seguinte:

Um Espírito falador.

Estando, há algumas semanas, em Worcester, encontrei por acaso, na casa de um banqueiro dessa cidade, uma senhora com a qual fiz o conhecimento e, de sua própria boca, ouvi uma história de tal modo surpreendente, que não me foi necessário mais que um testemunho comum para nela acrescentar fé. Quando interroguei nosso hospedeiro sobre essa senhora, disse-me que a conhecia há mais de trinta anos. "Ela é de tal modo verídica, ajuntou ele, sua justiça é tão bem conhecida de lodo mundo, que não tenho a menor dúvida sobre a realidade do que contou. É uma mulher de uma reputação sem mancha, de costumes irrepreensíveis, possuindo um espírito forte e inteligente, e uma instrução variada. "Considerava, pois, como impossível que ela procurasse enganar os outros, ou que se enganasse ela mesma. Ouvira-lhe, freqüentemente, contar essa história, e sempre de maneira clara e precisa, de sorte que ficava extremamente embaraçado; repugnava-lhe admitir semelhantes fatos, e, de outro lado, não ousava pôr em dúvida a boa-fé de ninguém.

Minhas próprias observações tendiam a confirmar tudo o que me dissera a senhora em questão. Havia em seu ar, em suas maneiras, mesmo no som de sua voz, um não sei que que raramente engana, e que leva em si mesmo a convicção da verdade. Era-me, pois, impossível não a julgar sincera, tanto mais que ela parecia falar dessas coisas com uma repugnância evidente. O banqueiro dissera-me que era muito difícil fazê-la falar sobre esse assunto, porque, em geral, encontrava ouvintes mais dispostos a rirem que a crerem. Acrescentai a isso que nem a senhora, nem o banqueiro, conheciam o Espiritismo, ou dele apenas ouviram falar.

Eis o relato dessa senhora:

"Pelo ano de 1820, tendo deixado nossa casa de Suffolk, fomos habitar na cidade de ***, porto de mar, na França. Nossa família se compunha de meu pai, de minha mãe, uma irmã, um jovem irmão em torno de doze anos, de mim e de um doméstico inglês. Nossa casa estava situada num lugar bem retirado, um pouco fora da cidade, no belo meio da praia; não havia outra casa nem nenhuma espécie de navio na vizinhança.

"Uma noite, meu pai viu, a algumas jardas somente da porta, um homem envolvido num grande casaco e sentado sobre um pedaço de rochedo. Meu pai aproximou-se dele para dizer-lhe boa-noite, mas, não recebendo resposta, voltou atrás. Antes de entrar, todavia, teve a idéia de se voltar, e, para seu grande espanto, não viu mais ninguém. Ficou ainda mais surpreendido quando, depois de se aproximar de novo, e bem examinar tudo ao redor do rochedo, não viu o menor traço do indivíduo, que ali estivera sentado um instante antes, e nenhum abrigo existia onde pudesse se esconder. Quando meu pai reentrou na casa, disse-nos: "Meus filhos, acabo de ver uma aparição." Como se pode crer nos pusemos todos a rir às gargalhadas.

No entanto, nessa noite, e em várias noites seguidas, ouvimos ruídos estranhos em diversos lugares da casa; eram ora gemidos que partiam de debaixo de nossas janelas, ora parecia que se raspava sobre as próprias janelas, e, em outros momentos, dir-se-ia que várias pessoas raspavam no teto. Abrimos nossas janelas várias vezes e, pedindo em voz alta: "Quem está aí?" mas sem obter resposta.

"Ao cabo de alguns dias, os ruídos se fizeram ouvir no próprio quarto onde minha irmã e eu nos deitávamos (ela tinha vinte anos e eu dezoito). Despertamos todos da casa, mas não quiseram nos escutar; censuraram-nos e nos trataram de loucas. Os ruídos consistiam, comumente, em pancadas: algumas vezes eram 20 ou 30 num minuto, de outras vezes decorria um minuto entre cada golpe.

"Afinal, os ruídos de fora e de dentro foram igualmente ouvidos por nossos pais, e foram bem forçados a admitirem que a imaginação não tomara parte em nada. Então lembrou-se do fato da aparição; mas, em suma, não estávamos muito atemorizados, e acabamos por nos habituar a todo esse barulho.

"Uma noite, enquanto se batia como de hábito, veio-me ao pensamento dizer: "Se és um Espírito, bata seis vezes." Imediatamente ouvi bater os seis golpes muito distintamente. Com o tempo esses ruídos se nos tornaram de tal modo familiares que não só deles não tínhamos nenhum pavor, mas nos deixaram mesmo de ser desagradáveis.

"Atualmente, vou contar a parte mais curiosa dessa história, e hesitaria em vos comunicar, se todos os membros de minha família não fossem testemunhas do que exponho. Meu irmão, então criança, mas que é agora um homem muito distinguido em sua profissão, poderá, se necessário, vo-la confirmar todos os detalhes.

"Além das pancadas no nosso quarto de dormir, começamos a ouvir, no salão principalmente, como uma voz humana. Na primeira vez que a ouvimos, minha irmã estava ao piano; cantávamos uma canção, e eis que o Espírito se põe a cantar conosco. Pode-se imaginar nosso espanto. Não havia mais meios de duvidar da realidade do fato, porque pouco depois a voz começou a nos falar, de maneira clara e inteligível, misturando-se de tempo a tempo em nossa conversação. A voz era baixa, os tons lentos, solenes, muito distintos: o Espírito nos falava sempre em francês. Disse-nos que se chamava Gaspard, mas quando queríamos interrogá-lo sobre sua história pessoal, ele não respondia; nunca quis dizer o motivo que o levou a se relacionar conosco. Geralmente, pensávamos que era Espanhol; não posso todavia lembrar-me de onde nos veio essa idéia. Ele chamava cada membro da família por seu nome de batismo; algumas vezes nos recitava versos, e procurava constantemente nos inculcar sentimentos de moral cristã, mas sem nunca tocar nas questões do dogma. Parecia desejoso de nos fazer compreender o que há de grande na virtude, o que há de belo na harmonia que reina entre os membros de uma mesma família. Uma vez que minha irmã e eu tivemos uma leve disputa, ouvimos a voz dizer-nos: "M...está errada; S...tem razão." Desde o momento que se deu a conhecer, ocupou-se constantemente em nos dar bons conselhos. Uma vez meu pai estava muito inquieto a respeito de certos documentos que acreditava ter perdido, e que estava desejoso de reencontrar. Gaspard disse-lhe onde estavam na nossa velha casa de Suffolk; procurou-se, e no mesmo lugar que indicara, encontraram-se os papéis.

"As coisas continuaram a se passar assim durante mais de três anos; todas as pessoas da família, sem excetuar os domésticos, ouviram a voz. A presença do Espírito, porque nunca duvidamos de sua presença, era sempre uma grande alegria para todos nós; ao mesmo tempo o considerávamos nosso companheiro e nosso protetor.

Um dia, nos disse: "Durante alguns meses, não estarei mais convosco." Com efeito, suas visitas cessaram durante vários meses; uma noite, ouvimos essa voz, tão bem conhecida nossa, dizer-nos: "Eis-me ainda entre vós." Seria difícil pintar a nossa alegria.

"Até aqui, sempre o ouvíramos, mas não era visto. Uma tarde meu irmão disse: "Gaspard, eu gostaria muito de vos ver." e a voz respondeu: "Eu vos contentarei; ver-me-eis se fordes até o outro lado da praça." Meu irmão nos deixou, mas logo voltou dizendo: "Eu vi Gaspard; ele portava um casaco e um chapéu de abas largas; olhei-o sob seu chapéu, e ele me sorriu. -Sim, disse a voz, misturando-se na conversa, era eu."

A maneira pela qual nos deixou completamente, nos foi muito sensível. Retornamos a Suffolk, e lá, como na França, durante várias semanas depois de nossa chegada, Gaspard continuou suas conversas conosco.

"Uma noite, ele nos disse: "Vou deixar-vos para sempre, e serieis infelizes se permanecesse junto a vós neste país, onde nossas comunicações seriam mal compreendidas e mal interpretadas."

"Desde esse momento, acrescentou a senhora, com um acento de tristeza, como quando se fala de um ser amado que a morte levou, não mais ouvimos a voz de Gaspard."

Eis os fatos tais como me foram contados. Tudo isso me faz refletir, e pode igualmente fazer refletir vossos leitores. Não pretendo dar nenhuma explicação, nenhuma opinião; direi somente que tenho inteira confiança na boa-fé da pessoa de quem os tomei, e assino meu nome, em garantia da exatidão de minha narração.

S. C. HALL

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