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Conversas familiares de além-túmulo - Senhora Ida PfeifferRevista Espírita, dezembro de 1859 A senhora Ida Pfeiffer, célebre viajante (Sociedade; 7 de setembro de 1859.) O relato seguinte foi extraído da segunda Viagem, ao redor do mundo, da senhora Ida Pfeiffer, página 345. Uma vez que me ocupo em falar de coisas tão estranhas, é necessário que mencione um acontecimento enigmático que se passou, há vários anos, em Java, e que fez tanta sensação que provocou mesmo a atenção do governo. "Havia, na residência de Chéribon, uma casinhola na qual, no dizer do povo, ocupava-se dos Espíritos. Na caída do dia, as pedras começavam a chover de todos os lados na sala, e por toda parte onde se escarrava siri (1). (1-Preparado que os Javaneses mascam continuamente, e que dá à boca e à saliva uma cor de sangue. ) As pedras, assim como os escarros, caíam perto das pessoas que se encontravam no recinto, mas sem atingi-las nem feri-las. Parecia que era sobretudo contra uma pequena criança que isso estava dirigido. Falou-se tanto desse assunto inexplicável, que por fim o governo holandês encarregou um oficial superior, que .merecia sua confiança, de examiná-lo. Este fez postar, ao redor da casa, homens seguros e fiéis, com proibição de deixar entrar e sair quem quer que fosse. Examinou tudo escrupulosamente, e pondo sobre os joelhos a criança designada, sentou-se na peça fatal. À tarde a chuva de pedras e de siri começou a cair como de costume: tudo caiu perto do oficial e da criança, sem atingir nem um e nem o outro. Examinou-se de novo cada canto, cada buraco; mas não se descobriu nada: o oficial nada pôde ali compreender. Fez recolher as pedras, fez marcá-las e escondê-las num lugar bem afastado; isso foi em vão: as mesmas pedras caíram de novo na peça, na mesma hora. Enfim, para pôr termo a essa história inconcebível, o governo fez demolir a casa" A pessoa que obteve este fato, em 1853, era uma mulher verdadeiramente superior, menos pela sua instrução e seu gênio que pela incrível energia de seu caráter. A parte essa ardente curiosidade e essa coragem indomável, que dela fizeram a mais espantosa viajante que jamais existiu, a senhora Pfeiffer não tinha em seu caráter nada de excêntrico. Era uma mulher de uma piedade doce e esclarecida, e que provou muitas vezes que estava longe de ser supersticiosa: tinha por lei não contar senão o que vira por si mesma, ou aquilo que tinha por fonte certa. (Ver a Revue de Paris, do dia 1º de setembro de 1856, e o Dictionnarie dês contemporains, de Vapereau.) 1. Evocação da senhora Pfeiffer. - Estou aqui. 2. Estais surpresa pelo nosso chamado e por vos encontrardes entre nós? - R. Estou surpresa pela rapidez da minha viagem. 3. Como fostes prevenida que desejávamos falar-vos? - R. Fui conduzida aqui sem disso suspeitar. 4. Todavia, recebestes um aviso qualquer. - R. Um arrebatamento irresistível. 5. Onde estáveis, quando do nosso chamado? - R. Estava perto de um Espírito que tenho a missão de guiar. 6. Tivestes consciência dos lugares que atravessastes para vir aqui, ou bem aqui vos encontrastes subitamente, sem transição? -R. Subitamente. 7. Sois feliz, como Espírito? - R. Sim, não se pode ser mais feliz. 8. De onde vos veio esse gosto pronunciado pelas viagens? -R. Fui marinheiro numa vida precedente, e o gosto que tinha, nessa vida, pelas viagens refletiu sobre esta, apesar do sexo que escolhi para disso me subtrair. 9. Vossas viagens contribuíram para o vosso adiantamento, como Espírito? - R. Sim, porque as fiz com espírito de observação, que me faltou na existência precedente, quando não me ocupei senão de comércio e de interesses materiais: foi por isso que acreditei avançar mais numa vida sedentária; mas Deus, tão bom e tão sábio em seus decretos que não podemos penetrar, fez-me utilizar minhas tendências para fazê-las servir ao adiantamento que eu solicitei. 10. Qual das nações que visitastes pareceu a mais avançada e que preferistes? Não dissestes, quando viva, que vos agradavam certas populações da Oceania acima das nações civilizadas? - R. Era um sistema errôneo. Prefiro hoje a França, porque compreendo sua missão e prevejo seus destinos. 11. Qual o destino que prevês para a França? - R. Não posso dizer-vos sua destinação; mas sua missão é espalhar o progresso, as luzes, e portanto o Espiritismo VERDADEIRO. 12. Em que os selvagens da Oceania vos pareciam mais avançados que os Americanos? - R. Neles encontrei, à parte os vícios concernentes ao estado selvagem, qualidades sérias e sólidas que não encontrei alhures. 13. Confirmais o fato que teria se passado em Java, e que é narrado em vossas obras? - R. Eu o confirmo em parte; o fato das pedras marcadas e lançadas de novo merece explicação: eram pedras semelhantes, mas não as mesmas. 14. A que atribuís esse fenômeno? - R. Eu não sabia a que atribuí-lo: perguntava-me se, com efeito, o diabo existia; e me respondia: Não, e nisso ficava. 15. Agora que podeis disso vos dar conta, podeis nos dizer de onde vinham essas pedras? Eram transportadas ou fabricadas de propósito pelos Espíritos? - R. Pedras transportadas. Era mais fácil, para eles, conduzi-las do que aglomerá-las. 16. E esse siri, de onde vinha? Era fabricado por eles? - R. Sim: era mais fácil, e, por outro lado, inevitável, uma vez que era impossível encontrá-lo inteiramente preparado. 17. Qual era o objetivo dessas manifestações? - R. Como sempre, para chamar a atenção e fazer constatar um fato do qual se falou e do qual se procurou a explicação. Nota. Alguém pode observar que essa constatação não poderia conduzir a nenhum resultado sério entre tais povos; mas responde-se que há um resultado real, uma vez que, pelo relato e o testemunho da senhora Pfeiffer, chegou ao conhecimento dos povos civilizados, que o comentam e dele tiram conseqüências: esses são, aliás, os Holandeses que foram chamados a constatá-los. 18. Deveria haver aí um motivo especial, sobretudo quanto à criança atormentada por esses Espíritos? - R. A criança tinha uma influência favorável, eis tudo, uma vez que não lhe fizeram pessoalmente nenhum toque. 19. Uma vez que esses fenômenos eram produzidos pelos Espíritos, por que cessaram quando a casa foi demolida? - R. Cessaram porque se julgou inútil continuar; mas não deveríeis perguntar se teriam podido continuar. 20. Nós vos agradecemos por terdes vindo e terdes consentido em responder às nossas perguntas. - R. Estou ao vosso dispor. Privat d'Anglemont(Primeira conversa, em 2 de setembro de 1859.) Leu-se no jornal lê Pays, de 15 ou 16 de agosto de 1859, a Notícia necrológica seguinte, sobre Privat d'Anglemont, homem de letras, falecido no asilo Dubois. "Suas invenções jamais faziam mal a alguém; não teve senão a última de má, e ela voltou-se contra ele. Entrando na casa de saúde onde acaba de morrer aos poucos, mas onde se apagou feliz por um bem-estar novo, Privat d'Anglemont imaginou dizer que era anabatista, e da doutrina de Swedenborg. Tinha dito muitas outras em sua vida! Mas desta fez a morte pegou-o na palavra, e não lhe deixou tempo para se desdizer. A suprema consolação da cruz foi afastada de sua cama; seu enterro encontrou uma igreja, e passou outra. A cruz não veio, não mais, recebê-lo no limiar do cemitério. Quando o caixão foi depositado na tumba, Édouard Foumier, que pronunciou sobre esse pobre corpo palavras tocantes, não ousou desejar-lhe senão o sono, e todos os seus amigos se afastaram, espantados de que não o tivessem saudado um a um com a água que se assemelha às lágrimas e que purifica. Fizeram, pois, uma subscrição, depois disso, e tentaram edificar alguma coisa sobre uma sepultura sem esperança! Pobre Privat! Eu não o confio menos àquele que conhece todas as misérias de nossa alma, e que colocou o perdão como a lei na efusão de um coração afetuoso." Faremos uma nota preliminar sobre essa Notícia Não há alguma coisa de atroz nesse pensamento de uma sepultura sem esperança, e que não merece mesmo a honra de um túmulo? A vida de Privat, sem dúvida, poderia ser mais meritória; sem contradita, teve defeitos; mas ninguém disse que foi um mau homem, fazendo, como tantos outros, o mal pelo prazer de fazê-lo, sob o manto da hipocrisia. Deve-se crer que, porque em seus últimos momentos na Terra foi privado das preces concedidas aos crentes, Deus o reprova para sempre, e que não lhe deixa senão o sono da eternidade por suprema esperança? Dito de outro modo, que não é, aos olhos de Deus, senão um animal, homem de inteligência, negligente, é verdade dos bens e dos favores do mundo, vivendo o dia-a-dia sem se preocupar com o dia de amanhã, mas, em definitivo, homem de pensamento, senão gênio transcendente? Nessa conta, como deve ser assustador o número daqueles que entram no nada! Convenhamos que os Espíritos nos dão de Deus uma idéia bem sublime, e no-lo representam como sempre pronto a estender mão segura àqueles que reconhecem seus erros, aos quais deixa sempre uma âncora de salvação. 1. Evocação. - Eis-me; que desejais, meus amigos? 2. Tendes uma consciência límpida da vossa situação atual? - R. Não, não totalmente, mas espero não tardar a tê-la, porque felizmente para mim, Deus não me parece querer afastar-me dele, apesar da vida quase inútil que vivi na Terra, e terei mais tarde uma posição bastante feliz no mundo dos Espíritos. 3. No momento de vossa morte vos reconhecestes imediatamente? - R. Fiquei perturbado; isto se compreende, mas não tanto quanto se poderia supor, porque sempre amei o que era etéreo, poético, sonhador. 4. Poderíeis descrever-nos o que se passou em vós nesse momento? - R. Não se me passou nada que seja muito extraordinário e diferente daquilo que já sabeis; inútil, portanto, disso falar-vos ainda. 5. Vedes as coisas tão claramente como em vossa vida? - R. Não, não ainda, mas eu as verei. 6. Que impressão faz sobre vós a visão atual dos homens e das coisas? - R. Meu Deus, o que deles sempre pensei. 7. Do que vos ocupais? - R. Eu nada faço; estou errante; procuro, não mais uma posição social, mas uma posição Espírita; outro mundo, outra ocupação; é a lei natural das coisas. 8. Podeis vos transportar por toda parte onde quiserdes? - R. Não; eu seria muito feliz, meu mundo é restrito. 9. É-vos é necessário um tempo apreciável para vos transportardes de um lugar a outro? - R. Bastante apreciável. 10. Durante a vossa vida, constatáveis a vossa individualidade por meio de vosso corpo; mas agora que não tendes mais esse corpo, como a constatais? - R. Hum! É estranho! Eis uma coisa na qual ainda não pensara; tem-se muita razão ao dizer que se aprende alguma coisa todos os dias. Obrigado, caro confrade. 11. Pois bem! Uma vez que chamamos a vossa atenção sobre este ponto, quereis nele refletir, e nos responder. - R. Eu vos disse que sou restrito como espaço; mas, ai de mim! Eu, que sempre tive uma imaginação viva, também o sou assim como pensamento; responderei-vos mais tarde. 12. Qual era, durante vossa vida, a vossa opinião sobre o estado da alma depois da morte? - R. Eu a acreditava imortal, é evidente; mas confesso, com minha vergonha, que não acreditava, pelo menos que não tinha uma opinião bem determinada sobre a reencarnação. 13. Qual era a fonte do caráter original que vos distinguia? - R. Não tinha fonte direta; outros são profundos, sérios, filósofos; eu era alegre, vivo, original; é uma variedade de caráter; eis tudo. 14. Não poderíeis, pelo vosso talento, vos libertar dessa vida de boêmia que vos atormentou pelas necessidades materiais; porque creio que vos faltava, freqüentemente, o necessário? - R. Muito freqüentemente; mas, que quereis? eu vivia como me compelia meu caráter. Em seguida, jamais soube me dobrar a essas tolas maneiras do mundo; não sabia o que era ir mendigar uma proteção; a arte pela arte, eis meu princípio. 15. Qual é a vossa esperança para o futuro? - R. Não o sei ainda. 16. Lembrai-vos da existência que precedeu a que acabais de deixar? - R. Ela foi boa. Nota. - Alguém observou que estas últimas palavras poderiam ser tomadas como uma exclamação irônica, o que era freqüente no caráter de Privat. Este respondeu espontaneamente: - Eu vos peço mil perdões; não gracejei; eu sou, é verdade, um Espírito pouco instruído para vós, mas enfim não quero gracejar com as coisas sérias. Terminemos aqui; não quero mais falar. Adeus. (Quarta conversa, 9 de setembro de 1859.) 1. Evocação. - R. Vejamos, meus amigos, não terminastes, pois, de me fazerem perguntas, muito sensatas, mas às quais não posso responder? 2. Sem dúvida, é por modéstia que dizeis isso; porque a inteligência que mostrastes em vossa vida, e a maneira pela qual nos respondestes, provam que o vosso Espírito está acima do vulgo. -R. Bajulador! 3. Não, não bajulamos, dizemos o que pensamos; aliás, sabemos que a bajulação não teria objetivo com os Espíritos. Quando da vossa última conversa, nos deixastes bruscamente; gostaríeis de nos dizer a razão disso? - R. A razão, ei-la aqui em toda a sua simplicidade: Vós me colocais perguntas de tal modo fora de minhas idéias que fico muito embaraçado para responder; compreendeis, pois, a justa agitação do orgulho que devo experimentar permanecendo calado. 4. Vedes outros Espíritos ao vosso redor? - R. Vejo-os em quantidades: aqui, lá embaixo, por toda parte, por toda parte. 5. Refletistes sobre a pergunta que vos fizemos e à qual dissestes que nos responderíeis em uma outra vez? Eu a repito: Quando vivo, constatáveis a vossa individualidade por meio de vosso corpo; mas agora que não tendes mais esse corpo, como a constatais? Em uma palavra, como vos distinguis dos outros seres espirituais que vedes ao vosso redor? - R. Se posso vos exprimir o que me toca, tenho ainda conservada uma espécie de essência que me dá minha individualidade, e não me deixa nenhuma dúvida de que não seja eu mesmo, embora esteja morto para a Terra. Estou ainda num mundo novo, bem novo para mim... (depois de alguma hesitação.) Constato, enfim, a minha individualidade pelo meu perispírito, que é a forma que tinha nesse mundo. Nota. Pensamos que esta última resposta foi-lhe soprada por um outro Espírito, porque sua precisão contrasta com o embaraço que parece indicar o início. 6. Assististes aos vossos funerais? - R. Sim, eu assisti a eles, mas não sei muito por quê. 7. Que sentimento isso vos fez experimentar? - R. Eu o vi com prazer, com muita satisfação, que em deixando a Terra, nela deixo ainda lamentações. 8. De onde vos veio a idéia de vos dizer anabatista e sweden-borgoriano; foi porque estudastes a doutrina de Swedenborg? - R. Foi uma de minhas idéias excêntricas entre as outras. 9. Que pensais da pequena Notícia necrológica publicada sobre vós em te Pays? - R. Vós me embaraçais, porque credes, se publicásseis essas comunicações na Revista, que isso daria prazer àquele que a escreveu, que eu digo, eu, para quem elas foram feitas, que são belas frases, nada mais do que belas frases? 10. Retomastes, algumas vezes, para ver os lugares que freqüentastes quando vivo, e os amigos que deixastes? - R. Sim, e ouso dizer que nisto encontro ainda uma certa satisfação. Quanto aos amigos, tinha-os bem poucos sinceros; muitos me apertavam a mão sem ousarem me dizer que eu era excêntrico, e por último me destruíam, me tratavam de louco. 11. Para onde pretendeis ir, em nos deixando? Esta não é uma pergunta indiscreta, mas para nossa instrução. - R. Onde irei?... Vejamos, pois!... Olhai, uma excelente idéia... vou me pagar uma pequena alegria... uma vez não é costume... Vou fazer um pequeno passeio, visitar um pequeno quarto que, durante minha vida, deixou-me lembranças bem agradáveis... Sim, é uma boa idéia; aí passarei a noite, à cabeceira de um pobre diabo escultor que esta noite não jantou, e que pediu ao sono o alívio de sua fome... Quem dorme janta... Pobre rapaz! Tranqüiliza-te, vou dar-te sonhos magníficos. 12. Não se poderia saber onde mora este escultor, para que se pudesse ajudá-lo? - R. Esta é uma questão que poderia ser indiscreta, se eu não conhecesse o louvável sentimento que a dita... Não posso responder a esta questão. 13. Terieis a bondade de nos ditar alguma coisa em seguida, sobre um assunto à vossa escolha. Vosso talento de literato deve tornar-vos a coisa fácil. - R. Não ainda; todavia, me pareceis tão afáveis, tão compassivos, que vos prometo escrever alguma coisa. Agora, talvez, poderia ser um pouco eloqüente, mas temo que minhas comunicações sejam ainda muito terrestres; deixai minha alma depurar um pouco; deixai-a trocar esse envoltório grosseiro que ainda a prende, e então eu vos prometo uma comunicação; somente vos pedirei uma coisa, que é pedir a Deus, nosso soberano senhor, conceder-me o perdão, o esquecimento de minha inutilidade na Terra; porque cada homem tem uma missão neste mundo, infeliz quem não a cumpre com fé e religião! Orai! Orai! Adeus. (Terceira conversa.) Estou aqui há muito tempo. Prometi dizer alguma coisa; eu direi. Nada é mais embaraçoso, sabei-o, meus amigos, que falar assim sem preâmbulo, e atacar um assunto sério. Um sábio não prepara suas obras senão depois de muito longas reflexões, senão depois de amadurecer por muito tempo o que deve dizer, o que deve empreender. Quanto a mim, eu o lamento, mas ainda não encontrei um assunto que seja digno de vós; não poderia dizer-vos puerilidades; prefiro, pois, pedir-vos para passar a questão para o mesmo dia da semana seguinte, como se diz no tribunal; talvez, então, terei encontrado alguma coisa que possa vos interessar e vos instruir. Tendo o médium insistido mentalmente para que dissesse alguma coisa, ele acrescentou: Mas, meu caro, acho-te admirado! Não, prefiro permanecer ouvinte; tu não sabes, pois, que há para mim tanta instrução, quanto para vós, em escutar o que se discute aqui? Não; eu vos repito, permaneço simples ouvinte; é um papel que será para mim muito mais instrutivo. Apesar de tuas instâncias, não quero responder; crês, pois, que seria muito agradável para mim que se dissesse: Ah! Esta noite evocou-se Privat d'Anglemont. -Verdadeiramente! Que disse ele? - Nada, absolutamente nada. -Obrigado! Gosto mais que se conserve de mim uma boa opinião. Cada um com as suas idéias. Comunicação espontânea de Privat d'Anglemont(Quarta conversa, 30 de setembro de 1859.) "Enfim eis que o Espiritismo faz grande ruído por toda a parte, e eis que os jornais dele se ocupam, de um modo indireto, é verdade, citando fatos extraordinários de aparições, de pancadas, etc. Meus ex-confrades citam os fatos sem comentários; nisso dão prova de inteligência, porque a Doutrina Espírita jamais deve ser mal discutida ou achada ruim. Todavia, ainda não admitiram a veracidade do papel do médium; eles duvidam; mas eu refuto as suas objeções em dizendo isto, que eles mesmos não são senão médiuns; todos os escritores, pequenos e grandes o são, mais ou menos; o são nesse sentido que os Espíritos que estão ao seu redor agem sobre o seu sistema mental, e lhes inspiram, freqüentemente, pensamentos que se glorificam de terem criado. Certamente, jamais teriam duvidado que eu, Privat d'Anglemont, Espírito leviano por excelência, jamais teria resolvido esta questão; e, todavia, não digo senão a verdade, e para prova dou uma coisa bem simples: Como ocorre que, depois de ter escrito durante algum tempo, estão como sobre-excitados e num estado de febre pouco comum? A atenção, dir-me-eis. Mas quando estais bem ligados a uma coisa, suponho olhando um quadro, é quando tendes a febre? Não, não é? Portanto, é necessário que haja uma outra causa. Pois bem! Eu o repito, a causa está na espécie de comunicação que existe entre o cérebro do escritor e os Espíritos que o cercam. Agora, meus caros confrades, chicoteai se vos parece bom o Espiritismo, zombai dele, mas com certeza zombareis de vós mesmos, vos dareis para mais tarde vergastas para vós... me compreendeis?" PRIVAT D'ANGLEMONT. O médium que servira de intérprete a Privat d'Anglemont na Sociedade, tendo a idéia de evocá-lo particularmente, teve com ele a conversa seguinte. Parece que este Espírito teve por ele uma certa afeição, seja porque encontrou nele um instrumento fácil, seja porque haja entre eles simpatia. Esse médium é um jovem iniciante na carreira literária, e seus felizes ensaios anunciam disposições que Privat, sem dúvida, tem prazer em encorajar. 1. Evocação. - R. Eis-me; já faz algum tempo que estou contigo; esperava essa evocação de tua parte. Fui eu que, a toda hora, inspirei alguns bons pensamentos que tiveste; foi a fim, caro amigo, de te consolar um pouco, e fazer-te suportar com mais coragem as penas deste mundo. Crês, pois, que não sofri também, mais do que pensais, vós todos que sorris às minhas excentricidades? E sob essa couraça de indiferença que afetei sempre, quanto escondi de desgostos e de dores! Tinha somente uma qualidade muito preciosa para um homem de letras ou para um artista: tenho sempre, e não importa em que ocasião, temperado meus sofrimentos com a alegria. Quando eu sofria muito, fazia pilhérias, jogo de palavras, gracejos. Quantas vezes a fome, a sede, o frio vieram bater à minha porta! E quantas vezes não lhes respondi com uma longa e alegre gargalhada! Gargalhada simulada, dirás? Pois bem! Não, não amigo, confesso-te que era sincera. Que queres! Sempre tive o caráter mais negligente que é possível ter. Jamais me preocupei com o futuro, não mais do que com o passado e o presente. Sempre vivi em verdadeira boêmia, sem preocupação com o futuro; gastando cinco francos quando os tinha, e mesmo quando não os tinha; e não mais rico quatro dias depois de ter recebido o dinheiro, do que o era na véspera. Certamente, não desejava a quem quer que seja levar essa vida inútil, incoerente, irracional. Os excêntricos não são mais do nosso tempo; as idéias novas fizeram por isso progressos muito rápidos. É uma vida da qual em nada me glorifico, e da qual, às vezes, tenho vergonha. A juventude deve ser estudiosa: ela deve procurar, pelo trabalho, fortificar sua inteligência, a fim de melhor conhecer e apreciar os homens e as coisas. Desenganai-vos, pessoas jovens, se credes que, saindo do colégio, sois homens completos ou sábios. Tendes a chave para tudo saber cabe-vos, agora, trabalhar e estudar; cabe-vos entrar, mas decididamente, no vasto campo que vos é oferecido, e cujos caminhos foram aplanados pelos vossos estudos do colégio: Sei que é necessário distração à juventude: o contrario seria contra a natureza; entretanto, muita não é preciso; porque aquele que durante a primavera de sua vida não pensou senão no prazer, prepara-se para, mais tarde, penosos remorsos. Será então que a experiência e as necessidades deste mundo lhe ensinarão que os momentos perdidos não se recuperam jamais. É necessário a um jovem leituras sérias: os autores antigos, freqüentemente, são os melhores, porque seus bons pensamentos sugerem outros. Devem evitar, sobretudo, os romances, que não excitam senão a imaginação e deixam o coração no vazio. Os romances não deveriam ser tolerados senão como distração, uma vez de tempo em tempo, ou para algumas senhoras que nada têm de melhor para fazer. Instruí-vos! Instruí-vos! Aperfeiçoai a inteligência que Deus vos deu; não se é digno de viver senão a esse preço. - P. Tua linguagem me espanta, caro Privat. Tu te apresentaste a mim sob aparência muito espiritual, sem dúvida, mas não como Espírito profundo, e agora... - R. Alto lá! jovem; eu te detenho. Eu apareci, ou antes, comuniquei-me com todos vós como um Espírito pouco profundo, de acordo; mas ocorre que não estava ainda totalmente desligado do meu envoltório terrestre, e o estado de Espírito não se apresentara, ainda, em toda a sua realidade. Agora, amigo, eu sou um Espírito, nada mais que um Espírito. Sinto que vou provar tudo como os outros, e a minha vida na Terra não me parece mais que um sonho; e que sonho! Estou em parte habituado a este mundo novo que deve ser a minha morada e por algum tempo. - P. Quanto tempo crês permanecer como Espírito, e em tua nova existência o que fazes? Quais são tuas ocupações? - R. O tempo que devo permanecer como Espírito está nas mãos de Deus, e durará - suponho e tanto quanto posso conceber - até que Deus ache a minha alma bastante depurada para encarnar numa região superior. Quanto às minhas ocupações, são quase nulas. Estou ainda errante, e é uma conseqüência da vida que levei na Terra. Assim é que, o que me parecia um prazer no vosso mundo, para mim agora é uma pena. Sim, é verdade, gostaria de ter uma ocupação séria, interessar-me por qualquer que merecesse a minha simpatia, inspirar-lhe bons pensamentos; mas, meu caro amigo, é muito tagarelar, e se me consentes permiti-lo, vou me retirar. Adeus; se tiveres necessidade de mim, não temas chamar-me: acorrerei com prazer. Coragem! Sé feliz! Dirkse Lammers(Sociedade, 11 de novembro de 1859.) O senhor Van B..., de La Haye, presente à sessão, deu conta do fato seguinte, que lhe foi pessoal. Numa reunião Espírita, à qual assistia, em La Haye, um Espírito, que se designou sob o nome de Dirkse Lammers, se manifestou espontaneamente. Interrogado sobre as particularidades que lhe concernem, e sobre o motivo de sua visita no meio de pessoas que não o conheciam, e que não o chamaram, contou assim a sua história: "Eu vivia em 1592, e fui enforcado no lugar onde estais neste momento, numa estrebaria de vacas, que existia então sobre o local da casa atual. Eis em quais circunstâncias: eu tinha um cão, e minha vizinha tinha galinhas. Meu cão estrangulou suas galinhas, e a vizinha, para disso se vingar, envenenou meu cão. Na minha cólera, bati e feri essa mulher; ela atacou-me na justiça, e fui condenado a três meses de prisão e a 25 florins de multa. Se bem que a condenação fosse bastante leve por isso não foi menor meu ódio contra o advogado X.....que a havia provocado, e resolvi me vingar dele. Em conseqüência, esperei num caminho abandonado que ele tomava todas as tardes para ir a Loosduinen, perto de La Haye; estrangulei-o e pendurei-o numa árvore. Para fazer crer num suicídio, coloquei no seu bolso um papel preparado de antemão, como sendo escrito por ele, e pelo qual dizia não acusar ninguém de sua morte, visto que ele mesmo tirara sua vida. Desde esse momento, o remorso perseguiu-me, e três meses depois me enforquei, como disse, no lugar onde estais. Vim, impelido por uma força à qual não pude resistir, confessar meu crime, na esperança que isso poderá, talvez, trazer algum alívio à pena que suporto desde então." Esse relato feito com detalhes tão circunstanciais, tendo espantado a assembléia, tomaram-se informações e soube-se, pelas pesquisas feitas no estado civil, que, com efeito, em 1592, um advogado, de nome X...... enforcou-se no caminho de Loosduinen. Tendo sido evocado, na sessão da Sociedade do dia 11 de novembro de 1859, o Espírito de Dirksen Lammers se manifestou por atos de violência, quebrando os lápis. Sua escrita era irregular, grossa, quase ilegível, e o médium experimentou uma dificuldade extrema para traçar os caracteres. 1. Evocação. Eis-me. Por que fazer? 2. Reconheceis aqui uma pessoa com a qual recentemente vos comunicastes? - R. Dei bastante provas de minha lucidez e de minha boa vontade: isso deveria bastar. 3. Com qual objetivo vos comunicastes, espontaneamente, na casa do senhor Van D.....? - R. Eu não o sei; fui enviado para lá; e não tinha, por mim mesmo, grande vontade para contar o que fui forçado a dizer. 4. Quem vos obrigou a fazê-lo? - R. A força que nos conduz: disso não sei nada mais; fui arrastado, apesar de mim, e forçado a obedecer aos Espíritos que tinham direito de se fazerem obedecer. 5. Fostes constrangido a atender ao nosso apelo? - R. Muito: aqui não estou no meu lugar. 6. Sois feliz como Espírito? - R. Bela pergunta! 7. Que podemos fazer para vos ser agradável? - R. É que desejais fazer alguma coisa que me seja agradável! 8. Certamente: a caridade nos ordena ser útil, quando o podemos, tanto para os Espíritos quanto para os homens. Uma vez que sois infeliz, chamaremos sobre vós a misericórdia de Deus: nós nos empenharemos em pedir por vós. - R. Eis, há séculos, as primeiras palavras desta natureza que me são dirigidas. Oh! Obrigado! Obrigado! Por Deus! Que isso não seja uma vã promessa, eu vos peço. Michel François(Sociedade, 11 de novembro de 1859.) Michel François, ferrador, que viveu no fim do século XVII, tendo se dirigido ao administrador de Provence, disse-lhe que um espectro lhe tinha aparecido, e lhe ordenara ir revelar ao rei Louis XIV as coisas mais importantes e mais secretas. Fê-lo partir para a Corte, no mês de abril de 1697. Uns dizem que ele falou com o rei, outros dizem que o rei se recusou ouvi-lo. O que há de verdadeiro, acrescente-se, é que em lugar de enviá-lo ao hospício, ele obteve dinheiro para a sua viagem, e a isenção de impostos e outras imposições reais. 1. Evocação. - R. Estou aqui. 2. Como soubestes que desejávamos vos falar? - R. Como me fazeis esta pergunta? Não sabeis que estais cercados de Espíritos que advertem aqueles com os quais desejais vos comunicar? 3. Onde estáveis quando vos chamamos? - R. No espaço, porque ainda estou errante. 4. Estais surpreso por vos encontrar no meio de pessoas vivas? - R. Não pelo menos do mundo; com elas me encontro freqüentemente. 5. Lembrai-vos de vossa existência, em 1697, sob Louis XIV, quando éreis ferrador? - R. Muito confusamente. 6. Lembrai-vos da revelação que queríeis fazer ao rei? - R. Lembro-me que tinha de fazer-lhe uma revelação. 7. Essa revelação, a fizestes? - R. Sim. 8. Dissestes que um espectro vos aparecera e vos ordenara ir revelar certas coisas ao rei; quem era esse espectro? - R. Era o de seu irmão. 9. Podeis nomeá-lo? - R. Não; vós me compreendeis. 10. Esse homem era designado sob o nome de Máscara de ferro? - R. Sim. 11. Agora que estamos bem longe daquele tempo, poderíeis dizer-nos qual era o assunto dessa revelação? - R. Era justamente de informar-lhe sua morte. 12. A morte de quem? Era a de seu irmão? - R. Mas sim. 13. Que impressão vossa revelação teve sobre o rei? - R. Uma impressão misturada com desgosto e satisfação: de resto, isso está bem provado pelo modo pelo qual ele me tratou. 14. Como vos tratou? - R. Com bondade e afabilidade. 15. Diz-se que coisa semelhante aconteceu com Louis XVIII. Sabeis se isso é verdade? - R. Creio que houve alguma coisa como isso, mas não estou bem instruído a respeito. 16. Por que esse Espírito vos escolheu para essa missão, vós, um homem obscuro, antes que um personagem da corte que se aproximasse do rei mais facilmente? - R. Eu me encontrei em seu caminho, dotado da faculdade que ele desejava encontrar, e que era necessária, e também porque um personagem da corte não poderia fazer aceitar a revelação: crer-se-ia instruído por outros meios. 17. Qual foi o objetivo dessa revelação, uma vez que o rei seria necessariamente informado da morte de seu irmão, antes de informado por vós? - R. Era para fazê-lo refletir sobre a vida futura e sobre a sorte à qual poderia se expor, e com efeito se expôs: seu fim foi manchado por ações pelas quais ele acreditava assegurar-se um futuro que essa revelação poderia tomar melhor. |
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