Resposta à réplica do senhor abade Chesnel, em l'Univers
Revista Espírita, julho de 1859
O jornal L'Univers inseriu, em seu número do dia 28 de maio último, a
resposta que demos ao artigo do senhor abade Chesnel sobre o Espiritismo, e
fê-la seguir de uma réplica deste último. Esse segundo artigo, reproduzindo
todos os argumentos do primeiro, menos a urbanidade das formas a qual todo o
mundo estava pronto a render justiça, não poderíamos respondê-la senão repetindo
o que já dissemos, o que nos parece completamente inútil. O senhor abade Chesnel
se esforça sempre por provar que o Espiritismo é, deve ser e não pode ser senão
uma religião nova, porque dele decorre uma filosofia, e que se ocupa da
constituição física e moral dos mundos. Nessa conta, todas as filosofias seriam
religiões. Ora, como os sistemas são muitos e todos têm partidários mais ou
menos numerosos, estreitaria singularmente o círculo do catolicismo. Não sabemos
até que ponto é imprudente e perigoso emitir uma tal doutrina; porque é
proclamar uma cisão que não existe; ao menos dar-lhe a idéia. Vede um pouco a
que conseqüência chegaríeis. Quando a ciência veio contestar o sentido do texto
bíblico dos seis dias da criação, criou-se-lhe o anátema, disse-se que era
atacar a religião; hoje, quando os fatos deram razão à ciência, quando não há
mais meios de contestá-los senão negando a luz, a Igreja se pôs de acordo com a
ciência. Suponhamos que então se dissesse que essa teoria científica era uma
religião nova, uma seita, que ela apareceu em contradição com os livros
sacros, que ela derrubava uma interpretação dada há séculos, disso resultaria
que não se poderia ser católico e adotar essas idéias novas. Pensai, pois, a que
se reduziria o número dos católicos, se fossem suprimidos todos aqueles que não
crêem que Deus fez a Terra em seis vezes vinte e quatro horas!
Ocorre o mesmo com o Espiritismo; se o olhais como uma religião nova, é
porque aos vossos olhos ele não é católico. Ora, segui bem o meu raciocínio: De
duas coisas uma: ou é uma realidade, ou é uma utopia. Se for uma utopia, não há
com que preocupar-se com ele, porque cairá por si mesmo; se for uma realidade,
todos os raios não impedi-lo-ão de sê-lo, tanto quanto não impediram outrora à
Terra de girar. Se há verdadeiramente um mundo invisível que nos cerca, se se
pode comunicar com esse mundo e dele obter notícias sobre o estado daqueles que
o habitam, e todo o Espiritismo está aí dentro, logo isso parecerá tão natural
quanto ver o Sol em pleno meio-dia ou encontrar milhares de seres vivos e
invisíveis em uma límpida gota d'água; essa crença se tornará tão vulgar, que
vós mesmos sereis forçados em vos render à evidência. Se, aos vossos olhos, essa
crença é uma religião nova, ela está fora do catolicismo; porque não pode ser,
ao mesmo tempo, a religião católica e uma religião nova. Se, pela força das
coisas e da evidência, ela se tornar geral, e não poderá ser de outro modo se
for uma das leis da Natureza, do vosso ponto de vista não haverá mais católicos,
e vós mesmos não sereis mais católicos, porque sereis forçados a fazê-lo como
todo o mundo. Eis, senhor abade, o terreno sobre o qual nos arrasta a vossa
doutrina, e ela é tão absoluta que me agraciais já com o título de grande
sacerdote dessa religião, honra da qual, verdadeiramente, pouco desconfiava. Mas
ides mais longe: segundo vós, todos os médiuns são os sacerdotes dessa religião.
Aqui vos detenho em nome da lógica. Até o presente, pareceu-me que as funções
sacerdotais eram facultativas, que não se era sacerdote senão por um ato de
própria vontade, que se não o era, apesar dela e em virtude de uma faculdade
natural. Ora, a faculdade dos médiuns é uma faculdade natural que se prende à
organização, como a faculdade sonambúlica; que não requer nem sexo, nem idade,
nem instrução, uma vez que é encontrada nas crianças, nas mulheres e nos velhos,
entre os sábios como entre os ignorantes. Compreender-se-ia que moços e jovens
fossem sacerdotes e sacerdotisas sem o querer e sem o saber? Em verdade, senhor
abade, é abusar do direito de interpretar as palavras. O Espiritismo, como eu
disse, está fora de todas as crenças dogmáticas, com as quais não se preocupa;
não o consideramos senão como uma ciência filosófica, que nos explica uma
multidão de coisas que não compreendemos, e, por isso mesmo, em lugar de abafar
em nós as idéias religiosas, como certas filosofias, fá-las nascer naqueles em
que elas não existem; mas se quereis, por toda a força, elevá-lo à categoria de
uma religião, vós mesmos o empurrais para um caminho novo. É o que compreendem
perfeitamente muitos eclesiásticos que, longe de produzir o cisma, se esforçam
em conciliar as coisas, em virtude desse raciocínio: se as manifestações do
mundo invisível ocorrem, isso não pode ser senão pela vontade de Deus, e não
podemos ir contra a sua vontade, a menos que digamos que, no mundo, qualquer
coisa pode ocorrer sem a sua permissão, o que seria uma impiedade. Se tivesse a
honra de ser sacerdote, disso me serviria em favor da religião; faria dela uma
arma contra a incredulidade, e diria aos materialistas e aos ateus: Pedis prova?
Essas provas, heis-las aqui: é Deus que as envia.
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