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Uma TV para o EspiritismoWilson Garcia São Paulo – SP Dirigente Espírita N. 56 Há uma ansiedade tão grande em ver o Espiritismo se apropriando dos meios de comunicação de massa que é raro não ouvir nos centros espíritas, reclamações sobre o atraso do movimento em relação a isso. Com razão, justa ou não, a maioria parece que deseja ver o Espiritismo na mídia e quando se fala em mídia pensa-se em TV, em primeiro lugar. O fascínio que os meios de comunicação de massa exercem sobre o homem – e o homem espírita não foge à regra – vem de longe. Quando o rádio exercia soberano essa função, a ele se dirigiam as atenções. O crescimento de outros meios e o aparecimento da TV fizeram com que as atenções se dividissem, mas TV, ainda e em especial hoje, cataliza os anseios. Não se trata, pois, de discutir o que ela, TV, oferece à divulgação da doutrina, porque as discussões aí vêm sendo travadas há mais de uma década e já passaram pelos principais aspectos, embora se saiba que poderão voltar à discussão a qualquer momento. É preciso – talvez mais do que isso, é necessário mesmo – posicionar a discussão em outro patamar: o da ética. Se não há dúvidas quanto às vantagens de poder levar o Espiritismo a um maior número de pessoas e a TV o possibilita alcançar de uma vez milhões, é preciso saber se devemos e estamos dispostos a pagar um alto preço por isso. Mais precisamente, se vamos trilhar o caminho invariavelmente trilhado pelos grandes grupos, nos quais a ética costuma adormecer nos porões da mente, reposicionando o lema dos fins que justificam os meios. A dura realidade dos tempos atuais nos apresenta um quadro no qual a questão ética aparece não apenas nas exigências de uma infra-estrutura cara, que precisa ser sustentada a todo custo, mas também em relação à ocupação do tempo e à formatação daquilo que o telespectador vai ver do outro lado. E antes disso é preciso pensar no script e nas intenções que permeiam o ideal, a princípio sempre muito respeitáveis, mas que a prática televisiva tem tratado de desmascarar. Quando se trata de discutir a importância da TV para a divulgação espírita, n!ao se pode permitir o envolvimento com as emoções do adepto e potencial telespectador, pois este deseja, com certa razão, apenas ver os valores de sua doutrina massificados, em vista do que se realizará de alguma forma. É preciso estender a discussão para o campo ético em seus aspectos visíveis ou não, segundo uma realidade da qual não se poderá fugir se se deseja de fato ocupar e comandar esse tão importante quanto permissivo meio de comunicação. No quadro dos interesses em pauta, a argumentação de que a doutrina já possui o seu fundamento ético bem definido estará inevitavelmente presente, mas é preciso aí não esquecer que outras ideologias, assumidas ou não como religião, também possuíram ou possuem o seu fundamento moral, o que não tem sido suficiente para impedir que a questão ética seja colocada num patamar secundário quando se trata de desenvolver ações para conquistar mentes e corações e para sustentar a infra-estrutura que custa milhões para ser montada e exige outros milhões para ser sustentada. No clima de uma sociedade capitalista, o investidor reclama resultados que gerem lucros, o que quase nunca tem sido possível superar mesmo quando o investidor aparece na pele de divulgadores de uma ideologia a princípio desligada do capital. Os compromissos com o ideal surgem bem vestidos no momento de captar recursos, mas se despem com freqüência quando é preciso resgatar dívidas e as pressões do mercado se acumulam. Quando assistimos a uma intensa campanha para a obtenção de recursos apelando à emoção – com a anuência de alguns dirigentes que fazem o mesmo, declaradamente, nos centros espíritas, em suas práticas normais e para assuntos semelhantes – nos permitimos imaginar o beco em que poderemos nos meter se assumirmos compromissos em certa ordem de grandeza, para cuja solução no futuro imediato ou distante o caminho ético poderá ser estreito demais. A discussão do assunto não é da competência apenas daqueles que desenvolvem esforços para conquistar os meios; é dever e obrigação de todos os espíritas, sobre os quais recairão os ônus final. Nós devemos dizer o que queremos e como queremos, sem medo e sem peias. O tempo do missionarismo já passou. Ninguém comanda uma empreitada desse gênero sozinho e ninguém fará uma televisão "espírita" para si mesmo. A comunidade é que vai pagar literalmente o preço e o preço em seu aspecto ético, ao contrário do que possa parecer, não está divorciado do preço financeiro ou econômico. No momento em que a comunidade é chamada a contribuir, deve ser chamada também, para dizer o que pensa e para participar do comando, segundo um critério de justiça e de prudência, que retira dos ombros de uns poucos a responsabilidades e a decisão, para dividi-las com a própria comunidade que, enfim, é quem estará diante da tela. |
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